

curadoria: Aline Siqueira, Pablo Lafuente e Raquel Barreto
assistente curatorial e pesquisador: José dos Guimaraens
comitê consultivo curatorial: Marcela Abla, Silvia Steinberg, Carlos Fernando Andrade
Consulte os textos da exposição Carmen Portinho: modernidade em construção, que fica em cartaz no MAM Rio até agosto de 2026.
Texto curatorial
Carmen Portinho (1903–2001) foi ativista dos direitos das mulheres, urbanista, diretora de museu e de escola superior, crítica de arte e militante pela cultura e pela liberdade durante a ditadura militar. Seu engajamento nestes diversos campos ao longo do século 20 sintetiza o projeto moderno em sua ambição de construir uma sociedade e um país mais justos por meio de saberes e tecnologias que visavam a emancipação individual e coletiva.
Com documentos de múltiplos acervos, esta exposição registra as ações e os processos de trabalho de Carmen Portinho e as ideias e objetivos que a guiaram, em um exercício de reflexão histórica que revela plataformas institucionais e redes pessoais durante oito décadas. Em seu conjunto, eles mostram que Portinho foi uma protagonista do modernismo brasileiro que entendeu a construção social e cultural como um processo eminentemente coletivo.
Os documentos estão divididos no espaço expositivo em três grupos, referentes a áreas de atuação essenciais de sua trajetória: moradia e habitação social; feminismo; e práticas de arte e educação. Há também uma seção dedicada à Revista Municipal de Engenharia, um projeto de Portinho que se converteu em plataforma fundamental para a divulgação do modernismo no Brasil.
Além dos documentos e registros, obras de artistas e cineastas nos aproximam de diversos aspectos da história de Portinho. O filme de Milena Manfredini e a instalação de Rommulo Vieira Conceição refletem sobre a forma e o legado de um dos seus projetos mais marcantes – o Pedregulho. A instalação de Ana Linnemann sugere, por meio de seus materiais e composições, um modo de trabalhar e viver. E, por último, em uma entrevista realizada por Ana Maria Magalhães em 1995, Portinho reflete sobre seu trabalho e sua história.
Apresentar juntos documentos e obras sobre a figura e as contribuições de Carmen Portinho não se reduz a um exercício de historiografia do projeto moderno no Brasil. Sua vida e ações nos convidam a pensar em como estamos participando da construção do país que queremos.
Núcleos
O direito à moradia é um direito social inscrito na Constituição Brasileira de 1988. Antes disso, já constava na Declaração dos Direitos Humanos da ONU, de 1948. Ainda assim, atualmente continuam escassas as políticas públicas de habitação social nas cidades brasileiras. A atuação de Carmen Portinho como diretora do Departamento de Habitação Popular, entre 1948 e 1960, representa um marco para as políticas de moradia da cidade do Rio de Janeiro e do Brasil.
Inspirada por princípios modernistas de habitação, e ao lado do companheiro de vida e colega na prefeitura Affonso Eduardo Reidy e de outros profissionais como Francisco Bolonha, Hélio Modesto e Lygia Fernandes, Portinho idealiza e implementa projetos estratégicos e estruturantes que alinham as melhores práticas de arquitetura, urbanismo, engenharia e arte às demandas sociais. Nessa trajetória, prioriza espaços autônomos de habitação, convivência, trabalho e educação que têm como objetivo contribuir para a qualidade de vida das pessoas. À frente dos projetos do departamento, com destaque para o Conjunto Residencial Prefeito Mendes de Moraes, o Pedregulho, Portinho imagina uma arquitetura transformadora e confronta os limites impostos às políticas habitacionais e urbanísticas no país.
Carmen Portinho foi uma das figuras mais ativas do feminismo brasileiro no século 20. Suas contribuições começam nas décadas de 1920 e 1930, na companhia de Bertha Lutz, Almerinda Gama, Leolinda Daltro, Orminda Bastos e outras sufragistas, na articulação de campanhas decisivas pelo voto feminino, pela educação e pelo reconhecimento de direitos civis e políticos das mulheres. A militância feminista continua ao longo de toda a sua vida profissional, como engenheira, urbanista e gestora de instituições de arte e ensino. Em muitas ocasiões, foi uma mulher pioneira na ocupação de espaços, começando com sua graduação: foi a terceira mulher a se formar em engenharia no Brasil. A partir daí, persiste em seu desafio de ultrapassar os limites impostos às mulheres, transformando sua trajetória profissional em ato político.
Portinho também deixou um legado institucional significativo, contribuindo para a criação e a consolidação de organizações feministas como a Federação Brasileira pelo Progresso Feminino, a União Universitária Feminina e a Associação Brasileira de Engenheiras e Arquitetas. Seu trabalho demonstra como a luta pela equidade passa pelo engajamento coletivo e pela construção de redes de apoio.
Como reconhecimento dessa trajetória, em 1987, no processo de elaboração da Constituição Federal, Carmen Portinho é escolhida para entregar simbolicamente a “Carta das mulheres brasileiras aos constituintes”. Sua figura materializa a continuidade histórica do feminismo no país e funciona como elo entre as lutas do início do século 20 e as conquistas atuais das mulheres na sociedade brasileira.
O projeto moderno pressupõe um processo pedagógico que visa uma sociedade emancipada, capaz de contribuir e usufruir de sua própria construção. Nessa perspectiva, o engajamento constante de Carmen Portinho com plataformas de educação e divulgação é coerente com seu compromisso com este projeto.
Esse interesse se manifesta já em seus anos como estudante, quando é cofundadora da União Universitária Feminina, e continua com seu trabalho com a Revista Municipal de Engenharia, que virou um dos principais veículos de divulgação do modernismo no Brasil. Durante sua gestão no MAM Rio, nos anos 1950 e 1960, a educação é um dos principais focos de atividade, com espaços e programas que viraram referência na história da arte no país. E, finalmente, enquanto diretora da ESDI, entre 1966 e 1988, garante a viabilidade de uma escola experimental dedicada ao desenho industrial em meio às incertezas da ditadura militar e de modelos de educação mais rígidos e administrativos.
Nesses projetos de educação formal e informal, a arte e suas dinâmicas de criação estão sempre presentes como referência, como inspiração e como modelo. O contato com artistas começa durante sua formação, quando Carmen Portinho ingressa na Escola Nacional de Belas Artes para estudar arquitetura, e continua profissionalmente em sua função de diretora-adjunta do MAM Rio e em seu trabalho como crítica de arte. Portinho, ao manter a expressão artística presente em seu percurso, inclusive em seus projetos de moradia, reforça a crença de que a arte tem a capacidade de melhorar a vida das pessoas.
Em resposta a uma sugestão de Carmen Portinho, é criada, em julho de 1932, a Revista da Diretoria de Engenharia da Prefeitura do Distrito Federal, um testemunho documental da construção da modernidade brasileira. Portinho está diretamente envolvida em cerca de trinta edições, desempenhando funções de redatora-chefe, diretora ou secretária, e escrevendo artigos. A publicação ajuda a disseminar as ideias da nova arquitetura, do urbanismo e da engenharia.
A linguagem modernista é o foco da revista, com artigos de Le Corbusier sobre as transformações urbanas do prefeito Pereira Passos no Rio de Janeiro, sobre o Congresso Internacional de Arquitetura Moderna, os primeiros projetos de Oscar Niemeyer, Affonso Eduardo Reidy e Lucio Costa, e textos como “Razões da nova arquitetura”, do próprio Costa, em que escreve sobre a necessidade de a arquitetura moderna brasileira se manter próxima às raízes do que ele acredita ser a identidade nacional. Em 1937, a revista passa a adotar o nome Revista Municipal de Engenharia.
Após sua saída do corpo editorial, em 1937, Portinho continua contribuindo por meio da apresentação dos projetos desenvolvidos pelo Departamento de Habitação Popular.
Este núcleo apresenta uma seleção de capas e artigos relevantes publicados pela revista. Diversas edições do periódico, editado de 1932 a 1999, estão disponíveis para consulta no site da Hemeroteca Digital da Biblioteca Nacional.
1903
Filha de mãe boliviana e pai gaúcho, Carmen Velasco Portinho nasce em Corumbá, no atual Mato Grosso do Sul, em 26 de janeiro de 1903. Sua família muda-se para o Rio de Janeiro em 1911.
1920
Inicia seus estudos acadêmicos matriculando-se na Escola Nacional de Belas Artes e na Escola Politécnica do Rio de Janeiro. Pretende estudar Arquitetura e Engenharia simultaneamente, mas, com as exigências do curso de Engenharia, abandona as Belas Artes. Durante o período em que estuda engenharia, é a primeira mulher a dar aulas no Colégio Pedro II, até então exclusivamente masculino.
1922
É convidada por Bertha Lutz para fundar a Federação Brasileira pelo Progresso Feminino. Participa da organização dos primeiros Congressos Femininos no Brasil e fomenta uma rede de associações feministas pelo Brasil.
1925
Forma-se como engenheira, a terceira mulher no Brasil a obter o título. No mesmo ano, perde o pai. Como primogênita, assume a posição de cuidar da família, junto com a mãe, e abre uma loja onde suas irmãs trabalham como datilógrafas.
1926
Começa a trabalhar na Prefeitura do Distrito Federal, quando, por ser mulher, é desafiada a consertar o para-raios do edifício da Prefeitura. “Peguei uma escada, subi ao teto, vi o que o pára-raios tinha e resolvi o problema. Foi uma maneira de enfrentar o preconceito”, contou em entrevista ao Jornal do Brasil, em 1999.
1929
Funda a União Universitária Feminina e participa da criação da Casa do Estudante do Brasil. Na prefeitura, executa o projeto de eletrificação das escolas municipais, que permitiu aulas noturnas para alfabetização de alunos adultos. Assiste à primeira palestra de Le Corbusier, que trazia ao Brasil suas ideias de urbanismo e arquitetura moderna.
Nos anos seguintes, são intensas as participações de Portinho em associações, sindicatos, congressos e manifestações, que demonstram forte interesse na igualdade dos direitos da mulher, mas também na defesa dos direitos de sua classe profissional.
1932
O voto feminino é instituído no Brasil, o que revoluciona os ideais da Federação Brasileira pelo Progresso Feminino.
Nasce, por iniciativa de Carmen Portinho, a Revista de Engenharia da Prefeitura do Distrito Federal, veículo pioneiro de circulação das ideias modernistas.
1936
Matricula-se no curso de Urbanismo, junto com Déa Paranhos, na Universidade do Distrito Federal, onde anos depois defende o projeto “Anteprojeto para a futura capital do Brasil no Planalto Central”, publicado na Revista de Engenharia em março e maio de 1939.
1945
Carmen Portinho viaja à Inglaterra, onde é estagiária no Plano de Reconstrução de Cidades Inglesas no pós-guerra, e conhece estratégias como a habitação mínima e as unidades de vizinhança. Realiza duas palestras sobre arquitetura moderna brasileira em Londres, e viaja a Paris, levando em primeira mão fotos e plantas do edifício do Ministério da Educação e Saúde Pública para Le Corbusier. O arquiteto franco-suíço foi consultor da equipe responsável pelo projeto do edifício, o primeiro a abrigar os cinco pontos da arquitetura moderna: pilotis, planta livre, fachada livre, janelas em fita e terraço jardim.
Ao regressar ao Brasil, propõe a criação do Departamento de Habitação Popular (DHP), do qual se torna diretora.
1950
É inaugurada a primeira fase do Conjunto Residencial do Pedregulho, projeto do DHP com autoria de Affonso Eduardo Reidy e contribuições de Roberto Burle Marx e Candido Portinari, colega de Portinho na Escola de Belas Artes. O projeto é reconhecido com o primeiro prêmio na Bienal de Arquitetura de São Paulo, em 1951, e é celebrado por Walter Gropius, Max Bill e Le Corbusier, entre outros.
1951
É nomeada diretora-adjunta do Museu de Arte Moderna do Rio de Janeiro, onde combina sua função gerencial com a de engenheira responsável pela construção da sede definitiva do museu, de autoria de Affonso Eduardo Reidy. O prédio seria inaugurado em 1958 com a abertura ao público do Bloco Escola.
1952
Muda-se para sua nova casa em Jacarepaguá, projeto do seu companheiro, Affonso Eduardo Reidy. O projeto é um dos disponibilizados como modelo gratuito, para uso da população, através do Departamento de Habitação Popular.
1960
Aposentada da Prefeitura, Carmen Portinho se dedica integralmente ao MAM Rio, respondendo pela construção do edifício mesmo após o falecimento de Reidy, em 1964. Em 1966, é destituída de seu cargo como diretora-adjunta do museu, mas continua, de forma voluntária, a cuidar dos trabalhos de finalização da obra.
1967
O Bloco de Exposições do MAM Rio é inaugurado. Carmen Portinho recebe o convite para dirigir a Escola Superior de Desenho Industrial (ESDI), posição que ocupará até 1988. Na ESDI, profissionaliza o ensino do desenho industrial e faz da Escola uma referência internacional. Durante sua gestão, são realizadas no MAM Rio três edições da Bienal Internacional de Desenho Industrial. Em 1975, a ESDI será integrada na UERJ.
1980
A partir da década de 1980, Carmen torna-se mais atuante como crítica de arte e júri de salões, bienais e concursos, chegando a ser presidente da Associação Brasileira de Críticos de Arte.
1988
Durante o processo de redemocratização, é convidada a entregar ao presidente da Câmara dos Deputados, Ulysses Guimarães, a “Carta das mulheres brasileiras aos constituintes”.
2001
Falece no Rio de Janeiro no dia 25 de julho, aos 98 anos.
Subnúcleos
Na virada do século 20, a habitação popular no Rio de Janeiro é orientada por políticas higienistas, com episódios marcantes como a demolição, em 1893, de um dos maiores cortiços da cidade, o Cabeça de Porco – onde viviam cerca de 2 mil pessoas.
Em contraponto, em 1906, como parte das mudanças radicais implementadas pelo prefeito Pereira Passos, após as demolições e despejos ocorridos para a construção da Avenida Central (atual Avenida Rio Branco), nascem as Vilas Operárias nos bairros do Estácio e Catete, para onde são transferidos alguns desses moradores.
A partir dos anos 1930, se intensifica o investimento privado e de Institutos de Pensão na construção de espaços populares de habitação. Exemplos no período modernista incluem a Vila Operária da Gamboa, projeto de Gregori Warchavchik e Lucio Costa, de 1933, e o IAPI de Realengo, da década de 1940, do arquiteto Carlos Ferreira, considerado a primeira intervenção modernista para habitação em escala no Rio de Janeiro.
O Departamento de Habitação Popular (DHP) do Distrito Federal é criado em 1946. Carmen Portinho era funcionária da Prefeitura do Distrito Federal e recebe indicação para chefe de setor do novo departamento. Neste início, o órgão é responsável pela concessão de projetos gratuitos de moradia unifamiliar à população de baixa renda, distribuindo gratuitamente projetos de casas desenhadas por uma equipe de arquitetura e subsidiando a construção de residências populares.
Após sua posse como diretora-geral, em 1948, o departamento inicia a construção de conjuntos residenciais, cujas unidades são inicialmente alugadas a funcionários municipais. A ideia é realizar onze conjuntos em pontos estratégicos da cidade. Apenas quatro são construídos, ainda assim parcialmente.
A base dos conjuntos residenciais propostos por Carmen Portinho é a “unidade de vizinhança”, conceito que conhece durante o estágio na Inglaterra, em 1945, onde acompanha os processos de reconstrução urbana após a Segunda Guerra Mundial. Os conjuntos cariocas estariam caracterizados pela qualidade de concepção e execução, e deveriam ser autossuficientes, minimizando o deslocamento casa-trabalho e incluindo espaços de educação, saúde e lazer, que Portinho considera extensões da casa. Habitação não é apenas habitação, é o conjunto de atividades que devem acontecer em torno dela.
O Conjunto Residencial Prefeito Mendes de Morais (1946), conhecido como Pedregulho, é o primeiro dos conjuntos inaugurados, projetado pelo arquiteto Affonso Eduardo Reidy a partir das ideias de Carmen Portinho e com a colaboração dos outros membros do Departamento de Habitação Popular. A primeira fase, em 1950, se efetiva com a entrega do mercado, da lavanderia, do posto de saúde, com painel de azulejos de Anísio Medeiros, das quadras de esportes, dos dois blocos de habitação, do playground e dos jardins, desenhados por Roberto Burle Marx.
Um dos pontos que chamam atenção no projeto é a lavanderia, que atenderia aos moradores do conjunto de forma gratuita. Sua função é poupar as donas de casa de lavar e passar roupas, mas também livrar as fachadas de varais. Entretanto, a ideia não é inovadora: em 1945, o Conjunto Residencial de Olaria, construído pelo Instituto de Aposentadorias e Pensões dos Comerciários, também contava com uma. Nenhuma delas durou.
Em 1951, é inaugurada a segunda etapa do Pedregulho, com a abertura da escola, do ginásio esportivo, da piscina e do vestiário coberto com azulejos de Anísio Medeiros. O painel de azulejos de Candido Portinari, executado por Paulo Rossi Osir, o mosaico em vidrotil e o afresco de Burle Marx são inaugurados em 1952. O conjunto é premiado na 1ª Bienal de São Paulo, em 1951, e celebrado em revistas por todo o mundo. O bloco curvilíneo começa a ser ocupado em 1958, mas sua inauguração se dá em 1960, quando Portinho não era mais diretora do DHP. O bloco vertical de habitação, com doze pavimentos, a creche e o berçário nunca foram construídos.
Semelhante ao Pedregulho, o Conjunto Residencial Marquês de São Vicente (1952) é um projeto do arquiteto Affonso Eduardo Reidy, com a colaboração da equipe do DHP. É construído para abrigar moradores de favelas removidas, que ocupavam desde 1942 moradias temporárias no Parque Proletário da Gávea. Os Parques Proletários eram construções provisórias feitas pela Prefeitura do Distrito Federal para acolher as pessoas removidas enquanto aguardavam uma habitação definitiva. A maioria acaba se favelizando, sendo o da Gávea o único que constrói parte de seus blocos de habitação social. O conjunto materializa uma das ideias centrais de Carmen Portinho: a permanência dos moradores em conjuntos próximos aos locais em que moravam antes das remoções, como, por exemplo, os habitantes da Favela da Memória, no Leblon.
Como o Pedregulho, o conjunto é concebido como um bairro autossuficiente, com escolas, igreja, posto de saúde, ginásio, comércio e teatro ao ar livre. A equipe do DHP tem como desafio inicial respeitar o traçado original da Autoestrada Lagoa-Barra, na época ainda em projeto, e em resposta propõe o rebaixamento de parte da via, evitando assim inconvenientes na circulação de pedestres. Apesar de todo esse planejamento, apenas o bloco principal, conhecido como Minhocão, é construído, e parte de seus apartamentos é destruída com a mudança do traçado original da autoestrada, motivada por interesses da Pontifícia Universidade Católica (PUC), que usa sua influência para evitar que a via passe por seu terreno.
O DHP produzia e distribuía gratuitamente à população carioca projetos de casas proletárias assinados pelos seus arquitetos. Assim, o cidadão podia escolher, conforme o seu terreno, uma série de soluções de alta qualidade arquitetônica, que ofereciam condições melhores de moradia a pessoas sem recursos para contratar um arquiteto. Entre elas, está o projeto Tipo E Solução 1, mais conhecido como Residência Carmen Portinho, projeto do arquiteto Affonso Eduardo Reidy que foi construído como sua residência em Jacarepaguá. Portinho não apostava nesse programa como algo que realmente transformaria a habitação social, e o considerava uma solução parcial.
O Conjunto Residencial de Paquetá (1949), de autoria do arquiteto Francisco Bolonha, mostra bem a diversidade projetual do departamento. A pequena escala, distribuída em dois blocos de dois pavimentos, conversa com a altura das edificações da Ilha de Paquetá. O conjunto foi construído para funcionários municipais e ex-moradores de favelas da ilha, e incluía ainda um conjunto de casas na parte alta do terreno, em forma curva, com vista para a Baía de Guanabara e a Pedra da Moreninha. Esse conjunto contava ainda com painel de azulejos de Anísio Medeiros, inexistente hoje.
O Conjunto Residencial de Vila Isabel (1955), também de Francisco Bolonha, é o mais incompleto dos quatro conjuntos propostos pelo DHP. Sua forma, como os projetos redent de Le Corbusier, avança e recua alternadamente em ângulos retos. Ocupando o terreno do antigo Jardim Zoológico, atual Parque Recanto do Trovador, teria jardins redesenhados por Roberto Burle Marx e incluiria no seu terreno escolas, ginásio, piscina, teatro, cinema e capela. Nenhuma dessas estruturas foi construída, nem mesmo o bloco principal foi terminado, tendo apenas uma de suas faces finalizadas.
A visão do departamento para ajudar a solucionar a questão da habitação popular no Rio de Janeiro era ambiciosa e difícil: construir onze conjuntos por toda a cidade. A então capital do Brasil era a maior e mais populosa cidade do país, e viu, entre os anos de 1930 a 1950, o número de habitantes crescer de 1,4 milhão para 2,4 milhões. Esse aumento expressivo reverbera na população, que vive em locais precários, como favelas – em 1946, ano de criação do departamento, as favelas reúnem cerca de 300 mil moradores.
Os conjuntos do DHP eram criticados pelo alto custo e complexidade, o que provocou atrasos nas conclusões, o abandono de fases ou mesmo de novas propostas de conjuntos. Entretanto, o trabalho de Carmen Portinho e sua equipe conseguiu construir unidades de habitação que ainda hoje são reconhecidas pela sua qualidade.
O aumento do número de pessoas em favelas leva a Prefeitura do Distrito Federal a criar em 1956 o Serviço Especial de Recuperação de Favelas e Habitações Anti-Higiênicas. O novo órgão, que não possui nenhuma conexão com o Departamento de Habitação Popular, demonstra certo isolamento do DHP junto às estruturas da Prefeitura.
Antes da criação do Serviço Especial, as remoções eram feitas para os Parques Proletários como locais de habitação temporários. Porém, grandes favelas como a das Catacumbas, às margens da Lagoa Rodrigo de Freitas, criavam desafios maiores. Affonso Eduardo Reidy, que também era chefe do Departamento de Urbanismo da Prefeitura, desenvolve em 1951 o projeto do Conjunto Residencial das Catacumbas para a transferência dos moradores dessa favela, que nunca foi construído.
As pressões financeiras sobre os gastos do DHP e a disputa com outros modelos mais ágeis e simplificados para resolver a questão habitacional levam à exoneração de Carmen Portinho em 1960 e sua consequente aposentadoria do serviço público. Dois anos depois, o Departamento de Habitação Popular é fechado. Os moradores da Favela das Catacumbas foram removidos durante os anos 1970 para conjuntos em regiões distantes dos locais onde viviam e sem infraestrutura, como a Vila Aliança, Vila Kennedy e Cidade de Deus, continuando as políticas de deslocamento praticadas por Carlos Lacerda como governador do estado da Guanabara entre 1960 e 1965.
Criado em 1910, com liderança de Leolinda Daltro, o Partido Republicano Feminino nasce com o objetivo de representar as mulheres na sociedade política brasileira e entende o voto feminino como um primeiro passo para essa conquista. Em 1917, o partido passa por uma reorganização e adota uma postura mais combativa, culminando em episódios como a marcha pelo centro do Rio de Janeiro, que é fortemente reprimida e atrai atenção da imprensa. Sua organização tinha ainda como foco a alfabetização das mulheres, e promoveu escolas femininas e iniciativas de ensino em praças públicas de áreas urbanas.
A Federação Brasileira pelo Progresso Feminino (FBPF), fundada em 1922 e liderada por Bertha Lutz, concentrava-se sobretudo na garantia do direito ao voto feminino. O intuito era que, ao alcançar seus direitos políticos, as mulheres teriam espaço para reivindicações mais complexas que atingiam diretamente a sua independência. Embora se apresentasse como uma organização de âmbito nacional, a FBPF era integrada majoritariamente por mulheres brancas do cenário urbano, o que mantinha as pautas alinhadas a esse grupo. Apesar de mencionar a mulher trabalhadora em seus estatutos, sua estrutura centralizada limitou a participação de operárias e de outros contextos sociais, como os de mulheres negras, indígenas e rurais.
Em poucas décadas de atuação, os esforços feministas conquistam seus primeiros resultados, entre eles mulheres entrando no mercado de trabalho como advogadas, médicas, arquitetas, engenheiras etc. Carmen Portinho é uma delas, sendo a terceira mulher a se formar em Engenharia no Brasil, em 1926. Anos mais tarde, em 1939, torna-se uma das primeiras urbanistas do país.
A luta pelo voto feminino tem algumas tentativas frustradas, e vira realidade inicialmente no Rio Grande do Norte, em 1927, quando a professora Celina Guimarães se torna a primeira eleitora brasileira. Em 1928, Alzira Soriano é nomeada prefeita da cidade de Lajes, sendo a primeira mulher eleita do Brasil. Ações continuam no resto do país, entre elas o sobrevoo no Rio de Janeiro, quando Carmen Portinho e outras companheiras promovem uma “chuva” de panfletos informativos sobre a importância do voto feminino.
No final dos anos 1920, é cada vez mais comum jovens mulheres ingressando nos cursos superiores. Assim, em 1929, Portinho e outras feministas fundam, no Rio de Janeiro, a União Universitária Feminina, criando uma rede de apoio às estudantes de todo o Brasil. As mulheres começam a aparecer mais, e jornais e revistas abrem espaço para informação por e para mulheres, como por exemplo a coluna dominical do jornal O Paiz, escrita por Portinho, Bertha Lutz e Orminda Bastos, focando em assuntos que vão de cuidados de beleza à emancipação feminina.
O 2º Congresso Internacional Feminino acontece no Rio de Janeiro em 1931, e reúne mulheres do Brasil e do mundo. A legalização do voto feminino no Rio Grande do Norte é um dos temas mais discutidos. No Congresso, além das reuniões, ocorrem diversas ações, desde práticas de decoração doméstica ao 1º Salão Feminino de Artes, organizado por Portinho. A exposição acontece logo a seguir ao Salão de 31, organizado por Lucio Costa e que busca revolucionar o ensino na ainda acadêmica Escola Nacional de Belas Artes.
O Congresso serviu, principalmente, para organizar estratégias para tornar o voto feminino uma realidade nacional. Entre elas, a reunião entre Carmen Portinho e o Presidente Getúlio Vargas, na qual Portinho solicita o direito ao voto feminino integral em escala nacional, direito que seria reconhecido em 24 de fevereiro de 1932.
Após a confirmação da emancipação política, Carmen Portinho e outras feministas focam seus esforços na luta pela igualdade, principalmente a independência da mulher em relação ao homem. Em suas palavras ao jornal A Noite, e não menosprezando a vitória obtida, Portinho declara: “Que importância pode ter para nós o direito ao voto ante outros grandes direitos que não obtivemos?”
As mulheres fazem-se cada vez mais presentes e ganham espaço em locais antes apenas acessível aos homens. No mercado de trabalho, os preconceitos eram normalizados, principalmente em áreas e profissões consideradas masculinas, como a Engenharia. Em resposta, Portinho e outras colegas fundam, em 1937, a Associação Brasileira de Engenheiras e Arquitetas, a primeira associação trabalhista com distinção de gênero.
A biografia profissional de Portinho é um exemplo dessa ocupação de espaços e funções por parte de mulheres: foi diretora do Departamento de Habitação Popular, diretora executiva adjunta do Museu de Arte Moderna do Rio de Janeiro e diretora da primeira escola de Desenho Industrial da América Latina, participando ativamente tanto da construção da paisagem da cidade, como da promoção da arte e da educação.
No processo de elaboração da Constituição de 1988, Carmen Portinho é escolhida por outras mulheres para entregar a Carta das Mulheres ao presidente da Câmara, Ulysses Guimarães, em reconhecimento de sua longa luta pela causa feminista.
Carmen Portinho entra em contato com as artes a partir dos anos 1920, quando ingressa na Escola Nacional de Belas Artes com o objetivo de estudar arquitetura. Naquela época, as disciplinas dos primeiros anos de arquitetura, pintura e escultura eram comuns a todos os cursos. Assim, ela tem contato com diferentes técnicas artísticas e fica próxima do artista Candido Portinari. Ao finalizar os estudos de urbanismo, matricula-se no curso de escultura, sendo aluna do modernista Celso Antônio. Em 1931, durante o 2º Congresso Feminino, organiza o 1º Salão Feminino de Artes. Ao longo das décadas seguintes, escreve em jornais sobre a obra de artistas como Henri Matisse e Almir Mavignier.
Carmen Portinho inicia sua coleção de arte quando estagia na Comissão de Reconstrução das Cidades Inglesas, em 1945. Durante a viagem, em visita a Paris para mostrar a Le Corbusier o projeto e a documentação do Palácio Gustavo Capanema, que ainda estava sendo construído, adquire gravuras de artistas como Fernand Léger, Pablo Picasso e Henri Matisse. Junto com essas obras, a coleção que constrói ao longo dos anos inclui obras de artistas como Ivan Serpa e Candido Portinari, e mobiliário de Joaquim Tenreiro e Alvar Aalto.
Nos anos 1950, Portinho é convidada para fazer parte da gestão do Museu de Arte Moderna do Rio de Janeiro, como diretora executiva adjunta. Suas responsabilidades incluem programação das exposições, contabilidade, gestão de equipe e coordenação das obras da sede definitiva do museu, projeto de autoria de Affonso Eduardo Reidy. Além disso, é responsável por exposições do museu, como Arquitetura brasileira, de 1954, que posteriormente itinerou pela Europa, e por individuais de artistas como Cícero Dias (1952), Roberto Burle Marx (1956) e José Pancetti (1955).
A construção do museu é iniciada em 1954, e envolve uma ampla articulação política e social nos setores público e privado, liderada pela diretora executiva Niomar Muniz Sodré junto com Portinho. O novo prédio é finalmente inaugurado em 1958, com a abertura do Bloco Escola, com a presença do Presidente Juscelino Kubitschek e uma multidão que inclui membros da sociedade civil e representantes dos âmbitos cultural e artístico.
A abertura do Bloco Escola permite concentrar os cursos que o museu oferece desde o começo dos anos 1950 em um único espaço, e consolidar o museu na paisagem da cidade como centro de arte e educação. Nesse local, é criado o Ateliê de Gravura, liderado pelas artistas Edith Behring e Anna Letycia durante a década de 1960, e responsável por uma geração de artistas dedicados à prática.
A partir de 1960, Carmen Portinho se aposenta do serviço público, dedicando-se exclusivamente ao MAM Rio até 1966. Nesse período, lidera uma instituição que funciona como centro catalisador de criação e liberdade mesmo após o golpe militar em 1964, fazendo contribuições fundamentais nas áreas de arte, design, educação e cinema. Nesses anos, trabalha também como crítica de arte e é convidada a participar de júris. Alguns anos mais tarde, entre 1968 e 1969, atua no conselho de cultura da revista GAM: Galeria de Arte Moderna, periódico com foco na produção artística experimental.
Ao mesmo tempo que trabalha na gestão do MAM Rio, envolve-se nas obras do Aterro do Flamengo, principalmente nos arredores do museu. Os encontros frequentes com Lota de Macedo Soares e com técnicos da Superintendência de Urbanização e Saneamento até sua inauguração em 1965 buscam resolver questões como acessibilidade e manutenção dos jardins, e impedir a construção de mais edifícios.
Apesar do seu desligamento em 1966, Carmen Portinho continua visitando as obras do Bloco de Exposições do MAM Rio diariamente, até sua eventual inauguração em 1967. Ainda durante sua gestão, Portinho tem participação fundamental nas negociações para o acolhimento da 22ª Reunião Conjunta do Banco Mundial, Fundo Monetário Internacional e seus afiliados, evento que garante os fundos para a conclusão do bloco.
Em 1967, Carmen Portinho é nomeada diretora da Escola Superior de Desenho Industrial (ESDI), concebida a partir do projeto de Escola Técnica de Criação, que o artista e designer Tomás Maldonado tinha desenhado para o MAM Rio nos anos 1950, quando ela trabalhava no museu.
Durante sua gestão, que desempenharia até 1988, Portinho luta pela valorização do desenho industrial no país, defende alunos das perseguições da ditadura militar e protege a escola contra a especulação imobiliária, conseguindo a doação definitiva do terreno. Acompanha também o processo de incorporação da ESDI à UERJ, em 1974.
Na Escola, Portinho promove um diálogo constante entre arte e design, mantendo um equilíbrio entre concepções funcionais e outras mais interessadas em processos de criação. Palestras com artistas como Hélio Oiticica e a realização de exposições como O artista brasileiro e a iconografia de massas, organizada por Frederico Morais em 1968, contribuem para essa visão ampla de uma pedagogia do design.
A relação com o MAM Rio continua com a organização de três Bienais Internacionais de Desenho Industrial que acontecem no museu, a primeira delas em 1968. Portinho abre também espaço na Escola para a Associação Brasileira de Críticos de Arte, da qual acaba sendo diretora em 1988.
Após sua saída da ESDI em 1988 e até 2001, Portinho mantém contato com a universidade como assessora do Centro de Tecnologia e Ciências da UERJ.
Em duas edições da Revista, em março e maio de 1939, é apresentado o “Anteprojeto para a Futura Capital do Brasil no Planalto Central”, desenvolvido por Carmen Portinho como trabalho final na formação de urbanismo na Universidade do Distrito Federal.
Procurando um tema para sua tese, Portinho troca correspondência com Anhaia Mello, uma das referências brasileiras na área, que lhe sugere focar no zoneamento urbano, em sintonia com os conceitos da “Cidade Radiante” de Le Corbusier. A constituição republicana de 1891 já se manifestava sobre uma nova capital na região, e coincidentemente Portinho escolhe o Vale do Rio Torto, onde hoje se encontra construída Brasília. O projeto de Lucio Costa executado na capital e a proposta de Portinho compartilham não apenas a localização ou a aplicação dos preceitos modernistas da Carta de Atenas, mas também a crença no urbanismo e na arquitetura como agentes de transformação social. Sua proposta prevê uma ocupação de 2 milhões de habitantes, uma cidade separada em setores comercial, cívico e habitacional, vias elevadas que evitam o cruzamento entre pedestres e automóveis, e uma aposta na densidade com o intuito de reduzir a área urbana e os deslocamentos e gastos com infraestruturas.
Portinho se forma urbanista em 1937, junto com uma colega de prefeitura e de luta feminista, Déa Paranhos, que não consegue defender sua tese por divergências políticas com a banca. Em 2022, é publicada a Lei 14.477/22, que declara Carmen Portinho como patrona do urbanismo no Brasil.
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