REINAUGURAÇÃO DO BLOCO DE EXPOSIÇÕES

Diferentes gerações reunidas na exposição Rio hoje (1989) celebram a reabertura do museu após série de reformas. 

A motivação inicial da exposição Rio hoje (1989) foi a visita ao Brasil de Peter Ludwig, advogado, colecionador, historiador da arte e empresário alemão. Ludwig e sua esposa Irene Monheim possuíam uma vasta coleção de arte e fundaram mais de doze museus e instituições, entre eles o Museum Ludwig em Colônia e a Fundación Ludwig de Cuba em Havana.  A fim de atender aos objetivos da visita, planejou-se organizar uma mostra focada na produção contemporânea. A visita foi cancelada, mas o interesse em mapear o “estado da arte” em um momento em que o MAM Rio retomava integralmente suas atividades redefiniu o propósito e o impacto desta exposição no museu, no circuito de arte e na cidade do Rio de Janeiro. 

O Bloco de Exposições do MAM Rio esteve fechado desde 1985 para recuperação da sua infraestrutura e adequação aos padrões museológicos internacionais. Com apoio da iniciativa pública estadual e privada, foram realizadas obras de reestruturação completa do edifício, que duraram até sua reinauguração em 1989. Neste período, esforços foram mobilizados também para a reconstituição da coleção, a recomposição da biblioteca especializada em arte e a formação de uma ampla coleção de fotografias. Durante o período de fechamento, o MAM Rio não interrompeu seu programa de exposições, que passou a ocorrer em outros espaços.  

O programa de recuperação do museu contou com a participação de três especialistas internacionais a convite de Herkenhoff: Eloise Ricciardelli, diretora-geral do departamento de registros do MoMA em Nova York, orientou as reformas e adequações da reserva técnica; a iluminação das galerias ficou a cargo do arquiteto Pietro Castiglione, responsável por esta área no Musée d’Orsay; e um plano de segurança foi elaborado por Robert Burke, autor de um manual de segurança básica para museus e chefe do comitê da Unesco para assuntos de segurança dessa natureza. Este investimento foi mobilizado pelo MAM Rio, que receberia em breve a coleção de Gilberto Chateaubriand.

A mostra Rio hoje reuniu 48 artistas de diferentes gerações e tendências, motivados a celebrar o reencontro com o MAM Rio e, também, em rememorar a trajetória marcante que constitui a história da própria instituição: “Mais do que uma exposição, é a retomada de uma relação afetiva com o museu essencial à vida desta cidade”.1 A comissão de curadores, que incluía Ligia Canongia, Viviane Matesco, Reynaldo Roels e Paulo Herkenhoff, procurou apresentar um panorama da produção contemporânea da cidade do Rio de Janeiro composta por cerca de 140 obras. Os critérios de seleção levaram em consideração artistas nascidos, residentes ou formados no Rio de Janeiro que contribuíram para o desenvolvimento de gerações futuras, apresentavam uma linguagem contemporânea, possuíam uma identificação com a cidade, e, por fim, artistas emergentes, representativos de uma futura geração.2

Estiveram entre os selecionados, os veteranos Anna Bella Geiger, Amilcar de Castro, Iberê Camargo, Flávio Shiró, Franz Weissmann e Ione Saldanha. Já Anna Maria Maiolino, Artur Barrio, Carlos Vergara, Carlos Zilio, Cildo Meireles, Iole de Freitas, Rubens Gerchman, Lygia Pape, Paulo Roberto Leal, Manfredo de Souza Neto, Sérgio Camargo, Tunga e Waltercio Caldas compunham outra geração, anterior ao grupo de artistas recém-chegados ao circuito de arte, como Adriana Varejão, Beatriz Milhazes, Daniel Senise, Ernesto Neto, Fernanda Gomes, Nelson Félix e Nuno Ramos. A montagem da exposição ocorreu no mesmo momento em que a 20ª Bienal de São Paulo inaugurava uma representação brasileira considerada a mais consistente das últimas edições. Estratégias e alinhamentos entre as instituições foram endossados pela presença de Herkenhoff, Marcus Lontra e Gilberto Chateaubriand, que formavam o conselho de arte e cultura da Bienal.3

Ainda que a mostra tenha contemplado nomes significativos da cena artística carioca e nacional, os artistas Frans Krajcberg e Antonio Dias se recusaram a enviar seus trabalhos em protesto à exclusão de Abraham Palatnik, Carlos Scliar, Glauco Rodrigues e Anna Letycia, artistas que contribuíram para a construção da história do museu, especialmente nas décadas iniciais de sua consolidação.

Após as experiências e os desafios colocados por essa primeira mostra na reinauguração do Bloco de Exposições, um programa expositivo foi elaborado com critérios que orientaram a escolha da coordenação de artes: a importância da articulação temática das mostras com os programas culturais de outras instituições; a divulgação da Coleção MAM Rio e da Coleção Gilberto Chateaubriand; a ênfase no conhecimento sobre arte brasileira; a integração com o cinema e a música e a interlocução com a produção internacional.

O museu encerrou o ano de 1989 com uma mostra em homenagem ao centenário de nascimento de Anita Malfatti (1889–1964), organizada em torno da doação da obra O barco (1915), realizada pela White Martins para a Coleção MAM Rio. Na ocasião, manuscritos, livros ilustrados pela artista e documentações históricas complementaram sua biografia exposta. Sendo a única obra da artista na Coleção MAM Rio, essa doação simbolizava o interesse do museu em formar uma coleção robusta de arte brasileira, alinhada às iniciativas de Herkenhoff para transformar o patrimônio artístico do museu em uma “enciclopédia visual do Brasil”.4


[1] “Rio hoje”, Jornal do Brasil, Rio de Janeiro, 25 out. 1989.

[2] Museu de Arte Moderna do Rio de Janeiro, Exposição Rio hoje, Rio de Janeiro, abr. 1989.

[3] 20ª Bienal Internacional de São Paulo, v 1, São Paulo: Fundação Bienal de São Paulo, 1989.

[4] “A cor volta ao MAM”, Jornal do Brasil, Rio de Janeiro, 23 out. 1989.

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