Exposições reúnem artistas das Américas por ocasião da Conferência das Nações Unidas.
Em junho de 1992, o Rio de Janeiro foi a cidade-sede da Conferência das Nações Unidas sobre Meio Ambiente e Desenvolvimento, também conhecida como Cúpula da Terra, que reuniu lideranças políticas, cientistas, representantes das mídias e de organizações não governamentais de cerca de 179 países. A Rio 92, como foi nomeada, tinha como foco elaborar um plano conjunto de cooperação internacional em prol das questões ambientais e do desenvolvimento socioeconômico, e incluía como parte da programação polos culturais e debates. O MAM Rio foi escolhido como um dos locais responsáveis pelas discussões sobre sustentabilidade, arte e cultura, e como sede de várias exposições.
A exposição internacional Eco Art, patrocinada pelo Banco Bozano, Simonsen e organizada pela Spala Editora foi um dos eventos paralelos e teve como tema central a ecologia. A mostra reuniu cerca de 120 artistas das Américas, sendo 50 representantes do Brasil. A seleção dos artistas e das obras, que deveriam ser inéditas, ficou a critério de críticos, marchands e diretores de museus. Um júri internacional, presidido pelo colecionador Gilberto Chateaubriand, premiou os 12 melhores trabalhos.1
Além da seleção brasileira, a mostra contou com a participação de artistas de diferentes países, como Argentina, Canadá, Chile, Colômbia, Costa Rica, Cuba, Equador, Estados Unidos, Guatemala, Haiti, México, Nicarágua, Paraguai, Peru, Porto Rico, República Dominicana, Uruguai e Venezuela. O contingente nacional reuniu representantes de diferentes regiões, com mais da metade concentrada na região Sudeste, especialmente no eixo Rio-São Paulo. Das cinquenta participações brasileiras, nove mulheres integraram o grupo, destacando-se Anna Bella Geiger, Beatriz Milhazes, Cristina Canale, Tomie Ohtake e Wanda Pimentel. Entre os demais artistas, marcaram presença nomes como Antonio Henrique Amaral, Antonio Manuel, Arcangelo Ianelli, Carlos Vergara, Carlos Zilio, Claudio Tozzi, Daniel Senise, Flávio Shiró, Gervane de Paula, Gonçalo Ivo, Humberto Espíndola, Ivald Granato, José Roberto Aguilar, Luiz Zerbini, Manfredo de Souza Neto, Rubem Valentim e Siron Franco.
As obras da mostra Eco Art, todas pinturas, mostravam diferentes abordagens sobre natureza, ecologia e sustentabilidade. Enquanto um conjunto de obras buscou evocar a natureza em telas dominadas por verdes e matizes terrosas, outras produções apontaram críticas aos impactos da degradação ambiental. Algumas delas buscaram integrar o corpo humano ao meio ambiente, criando ensaios visuais a partir de representações, simbologias, signos e motivos culturais. A mostra apresentou ainda paisagens realistas, ficcionais ou idílicas, nas quais a fauna e a flora, como fontes de observação e representação na história da pintura, ganharam outros sentidos com o fórum de debates da conferência.
A partir desta exposição, o MAM Rio deu continuidade, sob a coordenação geral de Marcus Lontra e coordenação de artes plásticas de Denise Mattar, a uma série de mostras relacionadas ao tema, com destaque para: Margaret Mee – vida e herança, que reuniu cerca de 120 peças entre ilustrações, sketchbooks, fotografias, mapas, artigos científicos e objetos pessoais utilizados nas atividades de registro da natureza; Viva o povo brasileiro: arte e artesanato popular, que reuniu cerca de 200 trabalhos de artesãos e artistas populares de quase todos os estados brasileiros; e Frans Krajcberg – imagens do fogo, com fotografias, objetos e esculturas resultantes de madeiras queimadas recolhidas ao longo de 15 anos na Amazônia e no Mato Grosso. Esta última foi dedicada a Chico Mendes, seringueiro, líder sindical e ativista ambiental reconhecido por sua luta na preservação da Floresta Amazônica e na defesa dos direitos dos povos originários, assassinado em 1988 e símbolo da causa ecológica.
O MAM Rio acolheu ainda a mostra Arte Amazonas, idealizada por Alfons Hug e Nikolaus Nessler e organizada pelo Goethe-Institut, que reuniu 27 artistas de diferentes nacionalidades convidados a “interpretar esteticamente” a Amazônia, considerando o “impacto de uma situação vivenciada”. A sérvia Marina Abramovic, o nigeriano El Anatsui, o tailândes Montien Boonma, o britânico Antony Gormley e os brasileiros Mário Cravo Neto, Miguel Rio Branco e Luiz Braga são alguns dos nomes que viajaram a cidades como Belém, Manaus e Porto Velho, além da região do Rio Solimões e Rio Purus e o território Yanomami da Venezuela. Nessas localidades, os artistas compartilharam ateliês e realizaram trabalhos com base no contato com as comunidades, os ecossistemas e a realidade local.2 A mostra gerou uma publicação com ensaios teóricos de intelectuais como o líder indígena e escritor Ailton Krenak, o antropólogo Darcy Ribeiro, o professor da Universidade Federal do Pará (UFPA) João de Jesus Paes Loureiro e Maria Heloisa Fénelon Costa, antropóloga especialista nas culturas e representações visuais dos povos Karajá (Vale do Araguaia) e Mehinako (Alto Xingu).
[1] Leila Alves, Eco Art, Rio de Janeiro: Spala Editora, 1992.
[2] Alfons Hug, “Arte Amazonas, Uma contribuição artística para a Conferência das Nações Unidas sobre Meio Ambiente e Desenvolvimento, Rio 92″, Rio de Janeiro: Museu de Arte Moderna do Rio de Janeiro, Brasília: Goethe-Institut, 1992, p. 15.