As mobilizações pelo tricentenário da morte de Zumbi dos Palmares (1995) e a representação afro-brasileira em debate.
O I Salão Nacional Zumbi dos Palmares (1995) integrou as mobilizações da cidade do Rio de Janeiro em torno dos 300 anos da morte do líder quilombola. O evento contou com o apoio do MAM Rio e com a coordenação da CAPA, Casa do Artista Plástico Afro-Brasileiro, associação formada por artistas e apoiadores, fundada no Instituto Palmares de Direitos Humanos, voltada ao apoio e à difusão da produção de artistas negras e negros.
O salão foi composto pela exposição Destaques contemporâneos da arte afro-brasileira, que reuniu artistas convidados, entre eles Abdias do Nascimento, Alcides Santos Coelho (Naval), Aloysio Zaluar, Amélia Zaluar da Casa da Flor, Barros Tambo, Idmach (Israel Dias Machado), Iracy Carise, Jacyra Silva, Januário Garcia, Jorge Crespo, Galvão Preto, Heitor dos Prazeres, Manuel Messias, Og Sales, Raquel Trindade, Sebastião Januário, Sérgio Vidal, Walter Firmo e Wanderley Caramba. Houve também uma mostra competitiva de âmbito nacional e internacional, na qual uma comissão julgadora selecionou cerca de 120 artistas. O júri foi presidido por Gilberto Chateaubriand e integrado pela historiadora Helena Theodoro, pelo crítico de arte Rubens Monteiro, pela professora Maria Luiza Neri, por Adhemar Calixto Yan, vice-reitor da Universidade Estácio de Sá, pelo artista Walter Firmo e por José da Paixão, artista e curador da exposição.1
Paralelo ao salão, o MAM Rio concebeu a mostra Herança africana, com curadoria de Denise Mattar, coordenadora de artes plásticas do museu. O enfoque da exposição foi a representação da cultura afro-brasileira na Coleção Gilberto Chateaubriand. Foram selecionadas obras de Antonio Maia, Edival Ramosa, Gervane de Paula, Heitor dos Prazeres e Rubem Valentim. A lista incluiu ainda Alberto da Veiga Guignard, Candido Portinari, Di Cavalcanti, Djanira, José Pancetti, Gilvan Samico, Ivan Serpa, Lasar Segall, Lívio Abramo, Luiz Alphonsus, Rubens Gerchman, Renina Katz e Tarsila do Amaral.2
A programação oficial contou com rodas de capoeira, apresentações musicais e de dança, uma feira gastronômica afro-brasileira e eventos literários, como o lançamento do livro Orixás – Os deuses vivos da África de Abdias do Nascimento publicado pelo IPEAFRO (Instituto de Pesquisas e Estudos Afro-brasileiros), e da revista Callaloo sobre arte e literatura da diáspora africana editada pela Universidade de Virgínia, nos EUA. O número da revista dedicado ao Brasil, em edição bilíngue, trouxe ensaios dos escritores Conceição Evaristo, Arnaldo Xavier, Éle Semog e José Carlos Limeira. A cinemateca do museu também integrou o evento com um ciclo de filmes e exibiu O fio da memória (1991) de Eduardo Coutinho; Chico Rei (1985) de Walter Lima Jr.; Abolição (1988) de Zózimo Bulbul; e Quilombo (1984) de Cacá Diegues.
O projeto criou um espaço para o público conhecer a produção de artistas negras e negros nas artes visuais, na literatura, no cinema, na música, gastronomia e cultura popular. Além disso, promoveu o reconhecimento da liberdade estética da arte de matriz africana, a difusão da cultura afro-brasileira, o fortalecimento do movimento negro, das lutas por equidade social e o enfrentamento do racismo no país. De acordo com os organizadores do Salão, “este projeto é um ato de fé no futuro, na grande inteligência e na criatividade de nosso povo. Qualquer que seja o remédio para a crise, ele passa obrigatoriamente pelo respeito aos valores políticos e históricos, e acima de tudo pelo estímulo à história política e social do Brasil. Eis porque consideramos o Salão Nacional Zumbi dos Palmares como um pretexto forte para retemperar o próprio caráter nacional”.3
[1] José da Silva Paixão, “Destaques contemporâneos da arte afro-brasileira”, I Salão Nacional Zumbi dos Palmares, Museu de Arte Moderna do Rio de Janeiro, nov.-dez. 1995.
[2] Denise Mattar, “Herança africana”, I Salão Nacional Zumbi dos Palmares, Museu de Arte Moderna do Rio de Janeiro, nov.-dez. 1995.
[3] Projeto da associação Casa do Artista Plástico Afro-Brasileiro para a realização do I Salão Nacional Zumbi dos Palmares, 1995.