Luiza Baldan
8h desocupo meu apartamento na Rua Paulino Fernandes.
A mudança vai em direção à casa nova, na Rua Dona Mariana.
Sinto uma dor terrível, choro compulsivamente, tenho medo de todo o desconhecido. Um cansaço sobrenatural toma conta e a fragilidade é inevitável.
15h encontro, sem programar, a minha família. Almoçamos juntos, como não acontecia há tempos.
18h chego no Minhocão, local da residência artística, atual moradia permanente até o dia 20 de dezembro.
O medo vira alívio.
O desconhecido vira vizinho.
O apartamento 613, da Dona Leda, vira minha casa. Isto aqui não é um hotel, é a minha casa.
Hoje faz 17 anos que meu pai morreu e fui obrigada a me mudar pela 8ª vez. Hoje fiz minha mudança de número 26.
Encontrei minha família e despedi-me dela. Conheci uma família nova.
Senti-me recebida com calor, carinho e atenção.
O medo do desconhecido terminou na amabilidade do outro. Muitas são as janelas neste prédio de muitos.
Sensação de que tudo ficou para trás.
Sinto-me tão longe do presente próximo e tão perto de um passado qualquer, de cidade pequena e vizinhos queridos.
O apartamento tem vista de torre e ar de casa.
Estou acolhida em meio aos pertences da Dona Leda. Faz três meses que ela partiu.
Os objetos ainda quentes, cachorros de porcelana que latem calados na estante. Imagino como seria a sua vida, junto à família com a qual agora convivo.
Faço retratos a fim de homenagear os que aqui vivem.
Vejo nos seus olhos uma ternura de agradecimento por meu gesto simples e afável. Participei da alegria do corredor – parte rua, parte pátio, parte sala –, local onde crianças deitam, eu deito, comida se apronta, comparte-se cerveja, música e conversas.
Respeito esta casa como se fosse minha. Ela agora me pertence.
Vejo as manchas das infiltrações no teto, mas não me abalo.
Desvio o olhar para o Jesus emoldurado, com um tercinho pendurado nele, e sinto-me feliz. Fogos de artifício, hino de futebol e tantos outros sons embalam a minha noite.
É bom estar sozinha e ter silêncio.
Existe um momento de paz em que o descanso é necessário. Não mais me pressiono com decisões.
Vivo cada instante com intensidade, nem muita nem pouca, mas de forma genuína. Quero estar aqui e todo o resto me importa de menos.
Não me atinge a precariedade do lugar.
Isso não sobressai na minha experiência romantizada desta casa. Vivo outra década em 15 dias do ano de 2009.
Hoje faltou água.
A mãe da Ilka morreu.
O pai das crianças bateu na esposa e apontou uma arma na frente da menina.
Eu chorei e brinquei com a criançada ao mesmo tempo, já que me pareceu mais sensato tentar distrair.
Há seis anos o D. bate na M.
Tiveram dois filhos e ela é mãe desde os 14. Hoje ela tem 21 e dormirá fora de casa.
A molecada pega a câmera russa de antigamente e brinca estarrecida. Querem apertar o disparador mesmo antes de escolher a foto.
A curiosidade é linda e anima o processo de convívio. Tinha um menino especialmente interessado.
Sério, arisco, ele pegava a câmera decidido. Cada criança com seu encanto.
Um somatório de mini-personalidades que fazem deste lugar único. Desenharam até dormir.
suco de goiaba+suco de uva+guaraná+canetinha+lápis de cera+papel+guaraná+papel+caneta+guaraná+tv+chave de casa+sono.
Gosto de dormir cheirando o pé da mamãe. O chulé dela é bom.
Ela namorava o dono da mercearia que morreu. Hoje em dia quem toma conta, de favor, é o tio.
Ele traz o pão fresco de manhã e viaja para Campo Grande no fim de semana. Aqui no corredor somos todos uma família.
Havia até o plano de juntarmos os apartamentos, abrindo uma janela entre as salas, para as conversas mais privadas.
Mas ficaram com medo da tia do outro lado, que era muito encrenqueira. Já somos a quarta geração de mulheres.
As famílias cresceram juntas, se multiplicaram.
A do 614 é madrinha da do 612, que é madrinha da do 614, e assim vai.
Acharam um filhote de cachorro abandonado e ninguém podia ficar com ela. A menina chorou muito porque queria a cadelinha.
Os outros cachorros do corredor sentiram o cheiro e ficaram alvoroçados. Todos pro banho para tirar a murrinha.
Faz muito calor e muita preguiça.
O ventilador toca uma musiquinha que dá sono. Ventinho quente, abafado, de tarde morta.
Nem café dá jeito.
Chego na janela para ver a paisagem de longe, mas o sol da tarde castiga. Dou a volta para a outra vista e o pessoal lá embaixo está queimando cobre. Mais calor, mais fumaça.
As crianças não sentem nada disso e brincam eufóricas na beira da laje. Os mais sortudos foram para a piscina de algum parente.
Espero alguém bater na porta, mas me lembro de que já está aberta. É só entrar.
A buzina do padeiro toca alto, a manicure trabalha no corredor. A cachorra Madona dorme feliz de barriga na cerâmica fria.
O perfume do recém-banhado invade a sala. Vai chover.
As nuvens se aproximam.
De pequena eu batia muito nela e também batia nos outros que queriam bater nela. Só eu podia bater.
Minha filha bate na filha dela. Sempre fomos melhores amigas.
Eu bato o bolo para ela, para você e para a vizinha, e assim não dá ciúme.
É melhor comer ainda quentinho, com o brigadeiro mole.
Passos, cachorros, pássaros, maquita, chuva, carros, buzinas, crianças, vassoura raspando o chão, bola, motor de caminhão.
Tiros.
Parece que são dentro de casa, no corredor. São no morro.
Algumas pessoas continuam tomando cerveja na mureta. No mesmo minuto meu telefone toca.
Coração aperta.
Mudo de canal. Pânico. Xurupita.
Estranho receber visita numa casa que não é mesmo minha.
Os amigos viraram turistas, observadores passivos da minha vida. Os assuntos são restritos e só falamos do pertinente a este lugar. Ninguém quer saber como estou, mas sim como estou vivendo.
Pela primeira vez tive vontade de ir embora.
Só senti o cheiro de xixi de gato porque me contaram que estava forte. Não gostei de ser vista como numa experiência exótica.
Não tem exotismo aqui.
O que se vive é puro e bastante verdadeiro.
Me incomodo com o olhar de reprovação e questionamento.
E mesmo eu sendo uma estrangeira, também me incomoda o olhar estrangeiro do outro. Prefiro ficar só com os meus botões e meus filhos postiços.
O quarto é rosa.
Ao abrir a porta de manhã, vejo um corredor iluminado de verde e amarelo, com rasgos de sol pelo chão, pelas portas, pelos livros na estante.
A penumbra matinal é filtrada por cortinas e toalhas, aquecendo os objetos com uma luz fraquinha.
O Snoopy de porcelana recebe um facho especial, quase um holofote.
À noite o vão da escada é lilás, cintilando pequenos quadrinhos na parede.
Meu tio ganhou este apartamento quando trabalhava para o governo, mas como preferia morar perto do jardim, cedeu-o para os meus pais.
Eu tinha 5 anos.
Um dia um funcionário do CEHAB veio investigar e regularizar os moradores. Pelo sobrenome da família ele reconheceu que era sobrinho da minha mãe. Não se viam há pelo menos 30 anos.
Vivo com minhas filhas, netas e meu novo marido. Não penso em sair daqui até morrer.
Muitos já vi chegar e passar, e hoje tomo cerveja sozinha por falta de companhia.
Desta vez pensei que fossem fogos, mas eram tiros de verdade. O motoqueiro não caiu e a polícia foi atrás dele.
Rapidamente o pancadão deixou de ser funk e virou pow-pow com sirene. Aqui tudo ainda em paz.
Strogonoff com arroz.
A água voltou, a chuva parou.
O telefone tocou e boas notícias chegaram.
Desde que moro nesta casa, toda vez que o telefone toca, recebo uma boa notícia.
Hoje me disseram que faço família em todo lugar.
No início da residência artística eu não podia imaginar que isto de fato aconteceria. Sentir-se acolhido não necessariamente significa ter afinidade.
Hoje deixei a casa que me devolveu um tanto de coisa que havia perdido por aí. Tive que sair e abraçar e chorar e doer.
Tive que prometer para mim mesma que aquele amor inventado em tão pouco tempo não cessaria naquela partida.
Volto para o Natal.
Volto para aquele corredor que foi tão casa quanto a minha casa. Volto para o calor das histórias embaladas a risos e gritos.
Ontem vi um álbum de fotografias antigas.
Ri das caretas das crianças que hoje são adultos.
Vi a semelhança genética das pessoas e a permanência grifada daquele cobogó, daquele corredor.
Agora eu estou sem casa, mas de volta a um cômodo fechado, sem comunicação externa além do barulho da rua movimentada e urbana do bairro de Botafogo.
De volta a braços confortáveis que estavam adormecidos aqui. Fecho o olho e um rostinho de criança vem na lembrança.
Sorrio.
Eles ficaram de me ligar para saber se eu tinha chegado bem.
Difícil responder a uma pergunta dessas num momento em que conquisto tanto, me emociono tanto, mas deixo algo muito potente para trás.
Não existe mágica que faça com que aqueles dias se prolonguem.
As fotografias que eu fiz servirão de álbum para alguma outra conversa daqui a 20 anos, seja deles, minha ou nossa.
Servirão de mapa para me levar de volta àquele lugar e adoçar a memória.
Toda bala Juquinha me levará ao esconderijo, ao pote verde em forma de maçã, onde reencontrarei aquela felicidade.
Muitos fogos.
Uns de artifício, outros de verdade. Queimaram o mato todinho.
Em vez de verde, agora é preto.
Uma pipa voa bem alto e, depois que avisto a primeira, já são dezenas dançando no céu. Hoje é dia de festa.
Bolinho de bacalhau em muitas casas.
As famílias trabalham e celebram ao mesmo tempo. Voltei ao corredor encantado e reencontrei os amigos.
Até o de 5 aprendeu a escrever “afeto” com pauzinhos de madeira. Os sofás e a cortina novos chegaram.
A sala se ilumina das tonalidades recentes.
Um lugar é inaugurado.
As crianças ajudam a limpar, mas sem querer molham a flanela. A chave esquecida no portão dá entrada a outros menos presentes. Hoje é dia de festa.
Roupas são estreadas.
A geladeira de um guarda a cerveja do outro. Eu trouxe pudim.
Latinha, latinha. É a hora do gato comer. Vai e vem, entra e sai.
Sandálias novas.
Feliz-da-vidá.