ABERTURA DO BLOCO DE EXPOSIÇÕES

Retrospectiva de Lasar Segall inaugura o núcleo central do museu, em 1967.

O dia 30 de outubro de 1967 foi um marco para a história do Museu de Arte Moderna do Rio de Janeiro com a inauguração do Bloco de Exposições. Até então, as atividades e mostras da instituição estavam concentradas no Bloco Escola, aberto ao público em 1958. Com a finalização do espaço desenhado especificamente para exposições, o primeiro edifício passou a desempenhar integralmente a sua vocação pedagógica. 

A construção do Bloco de Exposições tinha sido iniciada junto com o Bloco Escola, mas a falta de fundos impediu a conclusão do projeto até a chegada de um aporte financeiro do Fundo Monetário Internacional, que escolheu o espaço para realizar a sua 22ª Reunião Anual, em 1967. Com estas duas edificações – e na espera de uma terceira, o teatro, que só estaria completa em 2006 –, o museu conseguiu garantir a funcionalidade concebida por Affonso Eduardo Reidy em seu plano arquitetônico: a integração de artes visuais, biblioteca, cinemateca, reserva técnica e um conjunto de salas dedicadas à gestão e à administração do museu.

Após a Reunião Anual do FMI em setembro, a abertura para o público foi celebrada com uma ampla retrospectiva da obra de Lasar Segall, reunindo cerca de 660 peças entre pinturas a óleo, esculturas, gravuras, aquarelas e desenhos. O evento consagrou-se como a maior exibição do artista na América Latina, superando em envergadura a mostra de 1943 no Museu Nacional de Belas Artes e a sala especial na IV Bienal de São Paulo, organizada por ocasião de sua morte, em 1957. O mobiliário expositivo para o novo prédio foi um projeto de autoria do designer Karl Heinz Bergmiller, que idealizou um sistema de montagem específico para uma galeria de exposições que oferecia, segundo Reidy, “amplas possibilidades de ordenação dos espaços” e uma área “inteiramente livre de colunas” para receber variados formatos de ocupação.1

A mostra propiciou ao público um panorama da trajetória do artista, desde os anos iniciais de sua formação até a fase de consolidação de sua obra no cenário da arte brasileira com um vasto acervo, no qual se notabilizaram a série de gravuras do álbum Mangue (1925-1928) e as pinturas Paisagem brasileira (1925), Morro vermelho (1926), Bananal (1927), Perfil de Zulmira (1928) e Maternidade (1931), entre outros trabalhos somados a uma série de retratos e autorretratos.

Ressaltam-se os testemunhos visuais do sofrimento humano e dos crimes de guerra presentes na exposição. Compunham o conjunto de obras Pogrom (1937), Mãe morta (1940), Navio de emigrantes (1939–1941), Guerra (1942) e Campo de concentração (1945), além dos cadernos de desenho Visões da guerra (1940–1943). Esses temas ecoavam no cenário de crescentes tensões políticas que precederam o AI-5, emitido em 1968, deflagrando o período mais sombrio e violento da ditadura militar no Brasil. Em contrapartida, o ano de 1967 também testemunhou a resistência dos movimentos de contracultura e o engajamento de artistas empenhados na formulação de novos problemas para a arte, considerando a realidade social e política. 

Ao abrigar mostras históricas que tensionavam a situação política da época, o MAM Rio, agora estruturado pelo Bloco de Exposições e pelo Bloco Escola, consolidou-se como um polo de formação e difusão do pensamento crítico e da prática artística contemporânea em diálogo com a tradição moderna, confirmando a relevância do museu como agente cultural de vanguarda. 


[1] Affonso Eduardo Reidy, “Memorial descritivo”, em Frederico Coelho (org.), Museu de Arte Moderna: arquitetura e construção, Rio de Janeiro: Cobogó, 2010.

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