A FORMAÇÃO DE UM ACERVO FOTOGRÁFICO

Criação do Departamento de fotografia, vídeo e novas tecnologias (1986) e a consolidação da fotografia como artística.

“Fotografamos o que vemos e o que vemos depende de quem somos”.1 Essas palavras do fotógrafo piauiense José Medeiros ajudam a entender o impulso que deu forma ao Departamento de fotografia, vídeo e novas tecnologias, implementado por Pedro Vasquez a convite de Paulo Herkenhoff em 1986. O departamento tinha como objetivo construir uma coleção que recuperasse a história da fotografia nacional de forma ampla e estruturada, além de promover o reconhecimento desse meio, ainda pouco valorizado no cenário cultural da época. 

A fotografia não era compreendida somente como suporte iconográfico, portanto os critérios de seleção de itens para a coleção ultrapassaram os aspectos técnicos e priorizaram, sobretudo, os conceituais, sendo a importância histórica um fator determinante. A partir desse momento, a fotografia passou a ser tratada como expressão artística, vinculada à coordenação de arte, com um setor e organização próprios. O projeto pretendia organizar exposições nacionais, divulgar a fotografia brasileira internacionalmente e dedicar-se à formação e ao tratamento do acervo. Previa também a montagem de uma reserva técnica especializada na conservação de materiais fotográficos, a inclusão de uma seção de fotografia na biblioteca e a implementação de um laboratório, além de realizar pesquisas e promover publicações, cursos, seminários e aperfeiçoamentos museológicos na área.2 Inicialmente, o departamento contou com a assistência de Marcia Mello, que depois assumiu a curadoria com o afastamento de Vasquez do cargo em 1988.3

A realização mais relevante do departamento foi a criação de uma coleção que pudesse abranger a história da fotografia no Brasil, em um primeiro momento estruturada a partir de duas coleções: José Carlos Guimarães e Hermínia de Mello Nogueira Borges. 

A aquisição da Coleção José Carlos Guimarães com fotografias do século 19 foi patrocinada pela White Martins, empresa que estabeleceu uma parceria com o MAM Rio nesse período, ampliando o recorte da coleção com obras produzidas entre 1850 e 1925. Esse conjunto inicial expandiu-se com o investimento feito pelo Instituto Nacional de Fotografia da Funarte, do qual Vasquez foi coordenador do núcleo de fotografia, com a aquisição de cerca de 30 estojos de daguerreótipos, ambrótipos e ferrótipos, provenientes do colecionador Waldyr Cordovil. Entre os destaques estão registros raros de indígenas brasileiros feitos por Albert Frisch; obras de Jorge Henrique Papf, George Leuzinger, Francisco du Bocage, Militão Augusto de Azevedo, Augusto Malta, Marc Ferrez; além de litografias sobre a escravidão baseadas nas imagens de Victor Frond, datadas de 1858 e um retrato post-mortem de dom Pedro II, realizado pelo estúdio Félix Nadar, em 1891.

As doações realizadas pela fotógrafa Hermínia de Mello Nogueira Borges constituíram o “núcleo contemporâneo” composto por cerca de 700 imagens fotográficas, equipamentos ópticos, catálogos e filmes que ilustram a produção pictorialista e fotoclubista das décadas de 1920 a 1940. “Dona Hermínia”, como era carinhosamente conhecida, doou todo seu acervo pessoal e de seu marido, o advogado e fotógrafo João Nogueira Borges.4 

Soma-se à coleção a expressiva vertente experimental, notabilizada pelas doações de Athos Bulcão com sua série de fotocolagens e de Geraldo de Barros, representando suas Fotoformas. Dezenas de fotógrafos brasileiros fizeram doações individuais ao museu, contribuindo para a formação de uma coleção que abrange aproximadamente 150 anos de história da fotografia nacional. Em 1987, José Medeiros doou ao museu um conjunto de 90 imagens, composto por cópias fotográficas tiradas de seus negativos originais, devidamente identificadas e assinadas. A seleção, realizada por Vasquez, privilegiou os temas mais importantes da produção do fotógrafo: os rituais de candomblé, os registros etnográficos dos povos indígenas e as cenas cotidianas do Rio de Janeiro, com flagrantes do Carnaval e de Copacabana nos anos 1950. Na sequência, entre 1988 e 1990, o MAM Rio concentrou seus esforços na fotografia brasileira contemporânea, integrando novas referências ao acervo. Foram adquiridas obras de Ana Regina Nogueira, Boris Kossoy, Claudia Andujar, Cristiano Mascaro, Hugo Denizart, José Oiticica Filho, Maureen Bisilliat, Mário Cravo Neto, Miguel Rio Branco, Miguel Aun e Milton Guran.

Na história do departamento, sob os esforços de Vasquez, destacam-se duas mostras internacionais realizadas simultaneamente no Mois de la Photo à Paris em 1986. A primeira, Aspectos da fotografia brasileira no século 19, fruto de suas investigações pessoais, gerou grande repercussão nacional e internacional, sendo integrada a um amplo programa de divulgação.5 A segunda, Espelho rebelde, foi uma coletânea com trabalhos de 12 fotógrafos que se tornaram referência na fotografia contemporânea: Américo Vermelho, Ana Regina Nogueira, Antonio Augusto Fontes, Carlos Henrique do Souto, Carlos Moreira, Cassio Vasconcellos, Clovis Loureiro Jr., Felipe Taborda, Marcio Scavone, Luis Humberto, Romulo Fialdini e Walter Firmo.6 Ao longo da década de 1990, o departamento priorizou a divulgação de suas coleções por meio de mostras temáticas, como Fotografia brasileira contemporânea, realizada em comemoração aos 150 anos da fotografia, reiterando a missão do MAM Rio na difusão da fotografia brasileira. Seguiram-se as exposições José Medeiros (1991); Rio Narciso: imagens do Pão de Açúcar (1992); e Impressões fotográficas: imagens de Hermínia Nogueira Borges (1997). 

É importante notar que, antes mesmo de o departamento ser criado, o MAM Rio já apresentava mostras individuais e coletivas dedicadas à fotografia, especialmente voltadas à produção experimental. Na década de 1950, destacaram-se as exibições de artistas vinculados ao movimento surrealista: o fotógrafo alemão de origem judaica Arno Mandello e o português radicado no Brasil Fernando Lemos. Nos anos 1960, foi apresentada uma mostra coletiva com registros de José Medeiros, Flávio Damm e Orlando Machado.

O início da década de 1970 foi marcado por uma ampla retrospectiva de Henri Cartier-Bresson com cerca de 150 trabalhos, fruto da iniciativa de Walter Zanini, então diretor do Museu de Arte Contemporânea da Universidade de São Paulo (MAC USP). Outro marco foi a retrospectiva Ansel Adams, fotógrafo e ambientalista estadunidense, considerado um dos mais influentes na fotografia de paisagem, que teve seus 70 anos de vida e 50 anos de carreira celebrados no MAM Rio. A imagem fotográfica também integrou diversos projetos da Área Experimental (1975–1978) e a partir da década de 1980, as produções fotográficas retornaram ao circuito do museu com uma exposição de 50 imagens de Eugène Atget, pertencentes à coleção MoMA, com patrocínio do Jornal do Brasil. No mesmo período, Hugo Denizart apresentou uma série de registros cotidianos capturados na Cidade de Deus, e Walter Firmo realizou uma exposição celebrando seus 25 anos de trajetória profissional. Exposições dedicadas à fotografia continuam ocupando as galerias do museu até o presente. 


[1] José Medeiros, Fotografia no Brasil, Curadoria Rubens Fernandes Junior, São Paulo: Instituto Itaú Cultural; Rio de Janeiro: Museu de Arte Moderna do Rio de Janeiro, 1997.

[2] Pedro Vasquez, “Projeto para o Departamento Fotográfico do Museu de Arte Moderna do Rio de Janeiro”, s.d. 

[3] Marcia Mello, “Relatório de atividades do Departamento de fotografia, vídeo e novas tecnologias”, 1992.

[4] Pedro Vasquez, “Departamento de fotografia, vídeo e novas tecnologias do MAM/RJ”, Anais do Museu Histórico Nacional, v. 32, 2000, pp. 1–21.

[5] Pedro Vasquez, “Aspectos da fotografia brasileira no século 19”, VI Semana Nacional de Fotografia, ago. 1986. 

[6] Pedro Vasquez, “Projeto expositivo Espelho rebelde”, Mês da Fotografia em Paris, 1986. 

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