ARTE MODERNA BRASILEIRA EM EXPOSIÇÃO

Exposições que marcaram o período do MAM Rio no Palácio Gustavo Capanema (1952–1957).

“Quem passar pelo Ministério da Educação notará em uma das alas do pavimento térreo, sob o jardim suspenso, uma atividade intensa”.1 A nota refere-se aos últimos preparativos para a abertura da sede provisória do MAM Rio no Palácio Gustavo Capanema, localizado na rua da Imprensa, no centro da cidade do Rio de Janeiro. O projeto de adaptação do museu nos pilotis foi assinado por Oscar Niemeyer, que também integrou a equipe de arquitetos responsável pelo projeto arquitetônico do Ministério, considerado hoje um ícone da arquitetura moderna. Esse vínculo reforçou o reconhecimento público do museu e sua integração ao programa estatal composto pela tríade arte, cultura e educação, impulsionando o apoio do governo federal para a construção da sede permanente projetada por Affonso Eduardo Reidy.  

A instalação do MAM Rio no edifício do Ministério da Educação, vizinho à Escola de Belas Artes e ao Museu Nacional de Belas Artes (MNBA), enriqueceu o ambiente cultural da cidade ao expandir e oferecer ao público um amplo repertório artístico. Enquanto o MNBA salvaguardava a memória da arte, com ênfase no século 19, e instituiu, sob a gestão de Lúcio Costa, uma divisão moderna no Salão Nacional de Artes Plásticas, o MAM Rio estabelecia-se como instituição-chave na inserção e consolidação dos valores modernos. Por meio dos esforços de Niomar Moniz Sodré e Carmen Portinho, respectivamente diretora executiva e diretora executiva adjunta, o museu desempenhou um papel decisivo na exibição e recepção da arte moderna brasileira, articulada a uma programação de cursos, palestras e conferências.

A reinauguração do museu foi marcada por duas mostras: a do acervo e a de artistas premiados na primeira edição da Bienal de São Paulo (1951). O crítico de arte Mário Barata assinou o texto do catálogo da exposição da coleção, no qual afirmava o papel educativo do MAM Rio em promover a aproximação do público com as exposições temporárias. Estas exibições eram consideradas por ele um “instrumento de trabalho vivo”, que ofereciam a oportunidade de conhecer tanto a produção contemporânea quanto grandes nomes da modernidade artística brasileira.

A Exposição de artistas brasileiros (1952) foi a primeira mostra de arte nacional no MAM Rio desde sua abertura em 1949. Mobilizado pelas aspirações da nova sede, ainda que provisória, o crítico de arte Mário Pedrosa assinou o texto do catálogo, intitulado “Momento artístico”. Nele, Pedrosa traçou um panorama da arte brasileira, definindo a Bienal de São Paulo como “um marco divisório” na busca por novas ideias e convicções estéticas, além de ressaltar o interesse da nova geração pelas vanguardas construtivas. O crítico notou a querela entre figurativos e abstratos, e valorizou a presença de Lasar Segall, Di Cavalcanti e Candido Portinari.

A primeira exposição individual de um artista brasileiro no MAM Rio foi de Cícero Dias, consolidando uma trajetória que incluía o painel Eu vi o mundo, ele começava em Recife (1926–1929), exibido no Salão Nacional de Belas Artes (1931), ou Salão Revolucionário, e sua contribuição à mostra Do figurativismo ao abstracionismo na inauguração do Museu de Arte Moderna de São Paulo, em 1949. A exposição apresentava ao público uma retrospectiva com obras criadas desde o final da década de 1920, porém a ênfase em sua fase abstracionista e não figurativa demarcava, segundo Mário Pedrosa, o “propósito cultural” do museu.2

Embora a apreciação crítica de Pedrosa apontasse uma polaridade entre os defensores de uma “arte nacional” e a nova geração vinculada aos caminhos do abstracionismo, o MAM Rio reconhecia a importância de artistas consagrados do modernismo brasileiro. Assim, em 1953, o museu organizou uma ampla exposição com obras de Portinari que alcançou altos números de visitação: segundo os boletins de 1954, a mostra recebeu mais de 10 mil pessoas, superando os públicos de todas as mostras realizadas no Brasil até então. Também com o propósito de difusão, o museu apresentou, na sequência, retrospectivas de Guignard, Di Cavalcanti e José Pancetti. Dando continuidade a esse ciclo de grandes investimentos, exibiu, em 1956, a primeira individual de Maria Martins no museu, com cerca de quarenta esculturas, além de gravuras e desenhos da artista. Essa sucessão de exposições consolidou o protagonismo do museu como plataforma para as diferentes linguagens e vertentes do modernismo nacional.

Durante o período de permanência no Palácio Gustavo Capanema, o MAM Rio também contribuiu diretamente para a divulgação do trabalho das vanguardas construtivas. A instituição apresentou, junto à exposição do acervo, uma terceira versão do pioneiro Aparelho cinecromático, de Abraham Palatnik, o qual atraiu especial atenção do público.3 Além disso, o museu sediou duas exposições históricas do Grupo Frente (1954 e 1955), movimento liderado por Ivan Serpa, cujas reuniões e debates teóricos tinham o MAM Rio como um de seus principais eixos de articulação.

Em relatório publicado em 1957, o museu reitera a finalidade de alinhar suas ações com uma sociedade em plena expansão, modernização e desenvolvimento econômico. Segundo seus objetivos, além da tarefa de aproximar o público da arte que lhe era contemporânea, a futura sede permanente teria como meta a prática da pesquisa para, assim, consolidar-se como “o mais fecundo terreno” da atividade criadora em curso, o que posicionaria o museu como um agente ativo das transformações estéticas das décadas seguintes.4


[1] “Últimos preparativos para a instalação do Museu de Arte Moderna”, Correio da Manhã, Rio de Janeiro,  13 jan. 1952.

[2] “Mário Pedrosa, Cícero Dias, ou a Transição Abstracionista”, Acadêmicos e modernos, Textos escolhidos III, São Paulo: Editora da Universidade de São Paulo, 2004, p. 229. 

[3] “As projeções luminosas de Palatnik”, Museu de Arte Moderna do Rio de Janeiro, Boletim, março a abril de 1953.

[4] “O museu e suas finalidades”, Museu de Arte Moderna do Rio de Janeiro, Boletim, n. 15, 1957.

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