ARTISTAS MODERNOS INTERNACIONAIS NO MAM RIO

Mostras internacionais que definiram o programa do museu (1949–1957).

Fundado em 1948, o MAM Rio tinha estabelecido em seus primeiros estatutos a realização de exposições de artes plásticas em caráter permanente e temporário, a criação de uma biblioteca e de um acervo audiovisual, além da promoção de filmes, concertos, conferências e cursos. O texto do documento ressalta a importância do intercâmbio com organizações internacionais e, sobretudo, a disseminação da arte moderna no Brasil.

A primeira sede do museu ocupou um amplo salão cedido pelo barão de Saavedra, diretor do Banco Boavista e tesoureiro do museu, no 11º andar de um edifício planejado por Oscar Niemeyer, localizado na praça Pio X, no Centro da cidade do Rio de Janeiro. A mostra inaugural, Pintura europeia contemporânea, reuniu cerca de cinquenta obras de grandes nomes das vanguardas artísticas, como Georges Seurat, Paul Signac, Marc Chagall, Giorgio de Chirico, Max Ernst, Francis Picabia, Paul Klee, Henri Matisse, André Derain, Maurice de Vlaminck, Georges Rouault, Raoul Dufy, Fernand Léger, Alberto Magnelli, André Lhote, Jean Metzinger, Amedeo Modigliani, Georges Braque, Pablo Picasso, Joan Miró, Robert Delaunay e Wassily Kandinsky, entre outros.

Das obras em exposição, algumas integravam o núcleo inicial da Coleção MAM, enquanto outras pertenciam aos acervos particulares de Raymundo Ottoni de Castro Maya, Josias Leão, Niomar Moniz Sodré e Roberto Marinho. Na introdução do catálogo da mostra, Castro Maya, então presidente do museu, valoriza artistas que rompem com as tradições acadêmicas em busca de maior liberdade de expressão e afirma a necessidade de “incutir no público o gosto pela arte moderna”.1

Durante a curta temporada no 11º andar do Banco Boavista, de 1949 a 1951, o MAM Rio apresentou mais duas exposições com artistas franceses. A primeira delas, Le livre Français, exibiu cerca de setenta ilustrados com gravuras de expoentes da Escola de Paris. A segunda, intitulada A nova pintura francesa e seus mestres: de Manet a nossos dias, ocorreu em colaboração com a Embaixada da França, o Museu de Arte Moderna de Paris e o Museu de Arte de São Paulo (MASP), instituição que solicitou a Germain Bazin, então conservador-chefe do Museu do Louvre, o empréstimo de telas de Paul Cézanne e Auguste Renoir. A mostra foi patrocinada pelo Ministério da Educação e Saúde, órgão que, posteriormente, cedeu o espaço térreo do Palácio Gustavo Capanema para a instalação da segunda sede do museu.

A transferência do MAM Rio para os pilotis do Palácio Gustavo Capanema, edifício-ícone da modernidade, deflagrou o início de uma programação artística diversificada, que consolidou a missão do museu de se tornar um dos principais polos de difusão da arte moderna nacional e internacional no país. No período entre 1952 e 1957, o museu desenvolveu seu programa de intercâmbio ao apresentar artistas de destaque no panorama da arte internacional. Um dos marcos iniciais foi a mostra dos premiados da 1ª Bienal de São Paulo, realizada em 1952, que trouxe como grande destaque a célebre escultura Unidade tripartida (1948–49), de Max Bill.

O modernismo europeu foi explorado em exibições de relevância histórica, como a exposição Cubismo: 1907–14, apresentada pelo historiador da arte Jean Cassou; a individual Oskar Kokoschka, reunindo pinturas e gravuras; e a coletiva Modernos italianos, apresentada sob a epígrafe de Lionello Venturi e de textos de Umbro Apollonio, então colaborador da Bienal de Veneza. A pluralidade cultural do pós-guerra também se fez presente na exposição Artistas modernos de Israel, que exibiu obras abstrato-geométricas e propôs um debate sobre a diáspora judaica e os desafios para a reconstrução de uma identidade plástica nacional. O expressionismo alemão foi representado na exposição Arte alemã contemporânea, com cerca de 41 artistas modernos, concentrando desenhos, aquarelas e gravuras de Erich Heckel, Alexej von Jawlensky, Ernst Kirchner, Käthe Kollwitz, Franz Marc e Emil Nolde. 

A exposição Escola Superior de Desenho de Ulm, constituída por painéis fotográficos, evidenciava o alinhamento pedagógico do MAM Rio aos projetos da Bauhaus e de Ulm, servindo de referência para a criação da Escola Técnica de Criação, prevista no plano arquitetônico de Affonso Eduardo Reidy. A mostra contou com pinturas, desenhos, gravuras de Joseph Albers, Wassily Kandinsky, Paul Klee, Max Bill e Tomás Maldonado. Este último estenderia seus laços com o museu, ministrando, posteriormente, cursos e conferências.

O continente americano reafirmou seu diálogo por meio das vanguardas abstrato-geométricas na exposição Grupo de artistas modernos argentinos, com apresentação de Jorge Romero Brest, e nas mostras com os uruguaios María Freire e José Costigliolo, bem como com as pinturas e esculturas dos peruanos Fernando de Szyszlo e Joaquín Roca Rey. Complementando esse panorama, a exibição da Coleção Fleischman, do Detroit Institute of Arts Museum, trouxe ao museu um panorama da arte estadunidense dos séculos 18 ao 20, com destaque para as produções de Edward Hopper e Jacques Lipchitz.

A Divisão Cultural do Itamaraty, em parceria com o MAM Rio, promoveu e apoiou a realização de exposições individuais e coletivas de arquitetura e de artistas nacionais em cenário internacional. Destacam-se deste conjunto a itinerância pela América Latina com a mostra Pintura moderna brasileña, apresentada na Pasaje Laurenzo, primeira galeria comercial do Uruguai, reunindo obras de Aluísio Carvão, Di Cavalcanti, Djanira, Elisa Martins da Silveira, Samson Flexor, Alberto da Veiga Guignard, Heitor dos Prazeres, Iberê Camargo, Ivan Serpa, Lygia Clark, Maria Leontina, Milton Dacosta, José Pancetti e Candido Portinari. Ainda em solo uruguaio, a exposição Grabados brasileños, promovida em cooperação com o Instituto de Cultura Uruguaio-Brasileño no Centro de Exposiciones SUBTE, exibiu o trabalho de cerca de trinta gravadores nacionais.

A ampla mostra Arte moderno en Brasil, realizada em 1957, percorreu as cidades de Buenos Aires, Rosário, Santiago e Lima. O evento reuniu pinturas, esculturas, desenhos e gravuras pertencentes aos acervos do MAM Rio, do MAM de São Paulo e de coleções privadas, destacando obras de nomes fundamentais da arte brasileira, como Tarsila do Amaral, Anita Malfatti, Flávio de Carvalho, Antonio Bandeira, Geraldo de Barros, Aldo Bonadei, Cícero Dias, Hermelindo Fiaminghi, Frans Krajcberg, Maria Leontina, Djanira, José Pancetti, Candido Portinari, Heitor dos Prazeres, Ione Saldanha, Tomás Santa Rosa, Lasar Segall e Alfredo Volpi. A exibição contou ainda com os escultores Sergio Camargo, Bruno Giorgi, Maria Martins e Franz Weissmann, além de gravadores, como Lívio Abramo, Edith Behring, Oswaldo Goeldi, Marcelo Grassmann, Fayga Ostrower e Rossini Perez, entre outros nomes de destaque.

Segundo o crítico argentino Jorge Romero Brest, “a exposição tem sido visitada por 30 mil pessoas em um mês, o que constitui um número recorde em nosso país”.2 Organizada pelo professor e historiador da arte Carlos Flexa Ribeiro, primou pela abrangência de referências da arte nacional. Em seu balanço sobre o evento, o crítico considerou que “nenhum movimento, nenhum artista relevante deixou de ser representado, sendo a mostra saudada por toda parte como impressionante demonstração da forma criadora do Brasil”.3


[1] Raymundo Ottoni Castro Maya, “Introdução, pintura europeia contemporânea”, Museu de Arte Moderna do Rio de Janeiro, jan. 1949.

[2] Carta de Jorge Romero Brest ao Museu de Arte Moderna do Rio de Janeiro, Buenos Aires, 22 set. 1957. 

[3] Arte moderno en Brasil, Museo de Arte Contemporáneo, 16 set. – 6 out. 1957.

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