A história do Ateliê e as exposições de artistas gravadores.
A história do Ateliê de Gravura do MAM Rio se inicia com a ida de Edith Behring para Paris, contemplada com uma bolsa de estudos do governo francês em 1953. Behring havia iniciado seus estudos com Candido Portinari, dedicando-se posteriormente à xilogravura e ao desenho com Axl Leskoschek e à gravura em metal com Carlos Oswald na Fundação Getúlio Vargas. Em Paris, graças a Maria Leontina e Milton Dacosta, conhece o ateliê do gravador franco-alemão Johnny Friedlaender, onde aperfeiçoou seu trabalho por quatro anos. Naquele momento, os ateliês de Stanley Hayter (Atelier 17) e Friedlaender eram as duas grandes escolas de formação e atualização da gravura na cidade.
Entre 1953 e 1957, enquanto trabalhava com Friedlaender, Behring integrou comitivas internacionais ao lado de importantes gravadores brasileiros, entre eles Lívio Abramo, Geraldo de Barros, Vera Bocayuva, Oswaldo Goeldi, Marcelo Grassmann, Renina Katz, Fayga Ostrower e Mario Cravo, expondo na Europa e na América Latina. Os intercâmbios, somados ao interesse do MAM Rio em se consolidar como polo de atualização da gravura após inaugurar sua sede permanente em 1958, impulsionaram a criação de um ateliê no museu dedicado ao ensino e à difusão dessa linguagem.
O Ateliê de Gravura foi inaugurado em 1959, iniciando seu programa com uma exposição de Friedlaender e Behring, além de dois cursos práticos. Voltados para a técnica em metal, considerada o meio de expressão da vanguarda, o curso inaugural foi ministrado por Friedlaender com a assistência de Behring; o segundo ficou a cargo da artista junto a Rossini Perez. Segundo a historiadora da arte Maria Luisa Luz Távora, os investimentos para montagem do ateliê, e especialmente para a prática da gravura em metal, com materiais e mobiliário importados de qualidade insuperáveis, além da “ilustre presença” do artista gravador, não tiveram precedentes na história da gravura nacional. O espaço conjugava rigor técnico e liberdade criativa, tornando-se referência para artistas que buscavam sintonizar-se com as tendências contemporâneas.1
O ateliê manteve-se até 1969 sob a direção de Edith Behring. Junto à Anna Letycia, Behring pediu afastamento da direção por discordar das novas propostas para o ensino no MAM Rio, que, sob coordenação de Frederico Morais, optava pela integração das linguagens. Neste período, além de Rossini Perez, integraram o corpo docente nomes como Roberto De Lamonica, Roberto Magalhães (xilogravura) e Dionísio Del Santo (serigrafia). Entre 1974 e 1978, Eduardo Sued ministra as aulas de gravura em metal. Após um hiato, os cursos retornam em 1983 com Lena Bergstein e Rossini Perez, com gravura em metal, e Thereza Miranda, com fotogravura. Em setembro de 1991, a Oficina de Gravura do MAM foi reaberta no Galpão das Artes (espaço dedicado às atividades educativas, espetáculos e ações de performance) sob coordenação de Armando Mattos, responsável pelos cursos teórico-práticos de gravura.
A produção das alunas e dos alunos do Ateliê de Gravura gerou exposições anuais no museu, incluindo artistas como Maria Bonomi, Vera Mindlin, Roberto De Lamonica, Anna Bella Geiger, Dora Basílio, Isabel Pons, Sérvulo Esmeraldo, Arthur Luiz Piza e Farnese de Andrade. Destaca-se a mostra Atelier de gravura do MAM do Rio de Janeiro (1961), organizada por Edith Behring, Rossini Perez e Anna Letycia. No catálogo da exposição, Fayga Ostrower celebra o “súbito florescimento da gravura no Brasil” e reflete sobre a busca do artista gravador em equacionar disciplina, por meio da técnica, liberdade e expressão artística.2 Em 1967, o MAM Rio organiza com o MAC USP a II Exposição da jovem gravura nacional, premiando artistas como Emanoel Araújo e Vera Chaves Barcellos. Em 1971, Maria Bonomi apresenta sua histórica exposição individual Baladas do terror, na qual exibe os processos de confecção das matrizes, além de gravuras criadas a partir da arquitetura de Affonso Eduardo Reidy, enfatizando a gravura como linguagem e não somente técnica.
O museu também exibiu a produção gráfica internacional, como a mostra Gráfica alemã contemporânea (1973), com uma reunião expressiva de litografias, xilogravuras e serigrafias de 54 artistas, dentre os quais Josef Albers, Jean Arp, Joachim Albrecht, Max Ernst, Hans Hartung e Gerhard Richter. Paralelamente, apresentou retrospectivas de Lívio Abramo (1957 e 1975), uma marcante individual de Fayga Ostrower em 1968, artista que lecionava no museu desde 1953, e a mostra histórica de Oswaldo Goeldi em 1961, ano de seu falecimento. Estas iniciativas demonstraram a atuação estratégica do museu no mapeamento da gráfica contemporânea ao mesmo tempo em que apresentava o panorama da gravura moderna brasileira no ambiente cultural da cidade do Rio de Janeiro.
[1] Maria Luiza Távora, “O ateliê livre de gravura do MAM-Rio – 1959/1969 projeto pedagógico de atualização da linguagem”, Revista Artes & Ensaios, Programa de Pós-Graduação em Artes Visuais, v. 15, n. 15, 2007, p. 62.
[2] Atelier de gravura do MAM do Rio de Janeiro, Rio de Janeiro, set. 1961. Catálogo de exposição.