CHEGADA DA COLEÇÃO GILBERTO CHATEAUBRIAND

Exposições inauguram o comodato da coleção em nova fase do museu.

Em 1981 o MAM Rio inaugurou a exposição Do moderno ao contemporâneo: Coleção Gilberto Chateaubriand. A mostra marcou a retomada da programação do museu após as reformas iniciais decorrentes do incêndio ocorrido no museu em 1978. Com curadoria de Wilson Coutinho e Fernando Cocchiarale, e design expositivo de Karl Heinz Bergmiller, a seleção de cerca de 400 obras, entre pinturas, desenhos, gravuras, esculturas, objetos e instalações de 130 artistas, apresentou um itinerário histórico da arte brasileira desde o modernismo até as produções dos anos 1970.  

Na apresentação do catálogo, os curadores narram uma história da arte brasileira por meio de momentos emblemáticos, dos quais as obras da coleção são representativas. Contudo, reforçam que “a coleção é um índice, quase perfeito, de um processo de produção. É a administração brutal de uma coisa empírica”.1 A seleção das obras oferecia uma rica variedade de épocas e vertentes, com núcleos formados por expoentes do modernismo brasileiro – Anita Malfatti, Candido Portinari, José Pancetti, Tarsila do Amaral e Vicente do Rego Monteiro – e por obras experimentais dos anos 1960 – entre eles, Antonio Dias, Carlos Vergara, Roberto Magalhães e Rubens Gerchman.

A coleção de Chateaubriand começou a ser formada durante uma viagem a Salvador. Por intermédio de Odorico Tavares, jornalista e colecionador, ele conheceu Pancetti e seu ateliê. Lá, teve a oportunidade de apreciar os trabalhos do artista e adquirir a obra que mais lhe agradou: Paisagem de Itapuã (1953). O episódio estabeleceu um hábito futuro do colecionador: a aquisição de obras diretamente nos ateliês, apostando em produções que ainda não haviam passado por galerias comerciais. Para Frederico Morais, a coleção adquire relevância ao ser apresentada no MAM Rio: “Há muito tempo Gilberto Chateaubriand convenceu-se de que sua coleção, mesmo sem prejuízo da afetividade e do desejo nela investidos, perdeu seu caráter privado, para transformar-se em um patrimônio cultural do país”. Morais cita também as próprias palavras do colecionador, “minha coleção pertence hoje à cultura brasileira”.2

A exposição disponibilizou trechos de documentos históricos que referenciavam a natureza intelectual de cada década, como a revista Klaxon, o “Manifesto Pau Brasil”, a conferência Movimento Modernista (1942) de Mário de Andrade, o “Manifesto Ruptura” e o “Manifesto neoconcreto” (publicado originalmente no catálogo da I Exposição neoconcreta, realizada no MAM Rio em 1959). Em sintonia com esse aspecto, foi organizado um ciclo de debates sobre arte brasileira que contou com a participação de Aracy Amaral, Eduardo Jardim, Fábio Magalhães, Fernando Cocchiarale, Ferreira Gullar, Frederico Morais, Ronaldo Brito e Wilson Coutinho. A iniciativa retomava o compromisso histórico do museu com a formação de público e a produção de conhecimento crítico.

Em 1987, a Editora JB e o MAM Rio lançaram o livro Entre dois séculos: arte brasileira do século XX na Coleção Gilberto Chateaubriand, acompanhado da mostra O colecionador, sob curadoria de Paulo Herkenhoff, que reuniu um conjunto de obras de artistas vivos presentes na publicação. Nessa ocasião, foi anunciado “o processo de transferência, em caráter de empréstimo permanente, da Coleção Gilberto Chateaubriand para o Museu de Arte Moderna do Rio de Janeiro”. O comodato estabeleceria “o destino público manifesto que o colecionador sempre quis e nunca lhe negou: dedicar à sociedade o grande conjunto de arte brasileira”.3 A incorporação oficial só aconteceria em 1993, após uma reforma estrutural que foi realizada entre 1985 e 1989 e diversas exposições da coleção, entre elas Anos 60/70: Coleção Gilberto Chateaubriand MAM RJ (1992), O Rio de Janeiro na Coleção Gilberto Chateaubriand (1993) e Retratos e auto-retratos na Coleção Gilberto Chateaubriand (1993).

No boletim informativo de março de 1993, M. F. do Nascimento Brito celebrou o comodato e convocou a população a reconhecer tal empreendimento: “O Museu de Arte Moderna do Rio de Janeiro recebe, com emoção, esse extraordinário patrimônio. Graças a Gilberto Chateaubriand, nossa cidade passa a ser proprietária do maior e mais importante acervo de arte moderna brasileira. […] Cabe à população do Rio de Janeiro participar e fiscalizar as ações do Museu de Arte Moderna da cidade, da iniciativa privada e dos poderes públicos a fim de que o Rio de Janeiro saiba manter e preservar esse patrimônio”.4

A exposição Novas aquisições na Coleção Gilberto Chateaubriand (1994), assinada pelo curador Reynaldo Roels, foi a primeira mostra do acervo após a concessão do comodato. Composta por obras adquiridas nos dois anos anteriores, reuniu cerca de 42 artistas, de nomes históricos, como Flávio de Carvalho e Cícero Dias, a artistas consagrados no circuito da arte, como Anna Bella Geiger, Anna Maria Maiolino, Antonio Manuel, Cildo Meireles, Ernesto Neto, Jac Leirner, Luiz Zerbini, Miguel Rio Branco, Rosângela Rennó, Tunga, Waltercio Caldas, Elisa Bracher e José Bechara. O release da mostra reitera que o público “vai ter uma visão panorâmica da novíssima produção, recém-saída dos ateliês e selecionada pelo olhar crítico do colecionador”, em uma iniciativa que “possibilita que o MAM Rio seja um dos poucos museus brasileiros que tem um acréscimo contínuo de sua coleção, mantendo um acervo dinâmico, vivo e em constante renovação”.5


[1] Fernando Cocchiarale e Wilson Coutinho, Do moderno ao contemporâneo: Coleção Gilberto Chateaubriand, Rio de Janeiro: Museu de Arte Moderna do Rio de Janeiro, 1981.

[2] Frederico Morais, “Arte brasileira, do moderno ao contemporâneo”, Rio de Janeiro, O Globo, 21 maio 1981.

[3] Paulo Herkenhoff, O Colecionador, Exposição comemorativa do lançamento do livro Entre dois séculos: arte brasileira do século XX na Coleção Chateaubriand, out. 1987.

[4] M. F. do Nascimento Brito, Museu de Arte Moderna do Rio de Janeiro, Boletim informativo, fev.-mar., 1993.

[5] Denise Mattar, “Novas aquisições na Coleção Gilberto Chateaubriand” (release da exposição), 1996.

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