As aulas do artista e os processos de formação do Bloco Escola.
“O que eu faço é estabelecer um diálogo.”1 Estas palavras de Ivan Serpa (1923–1973), artista e professor do curso de pintura que ministrou por duas décadas no MAM Rio, são uma afirmação de seu viés metodológico. Dedicado ao ensino de pintura para crianças, jovens e adultos, Serpa estimulava suas turmas a expressar suas próprias ideias e experiências com base na imaginação criadora. Circulava entre as pranchetas e os cavaletes observando os desenhos e as pinturas, e buscava estimular o aprimoramento dos trabalhos com observações, sugestões e chamadas de atenção, com o rigor de um pintor que reconhecia as potencialidades artísticas em exercício. Ao final de cada etapa, convidava cada aluno e aluna a compartilhar suas impressões sobre o que havia feito, antes mesmo de iniciar sua apreciação crítica atenciosa a cada detalhe. Seu ateliê priorizava a discussão, e não somente a execução dos trabalhos.
A ideia do curso de pintura surgiu “por acaso”, como menciona o artista em entrevista.2 Ao dar aulas de francês para crianças, começou a utilizar desenhos para representar determinadas figuras. Serpa, no entanto, reconhece que a “grande oportunidade” foi quando precisou substituir o professor de desenho no estabelecimento em que lecionava, na cidade do Rio de Janeiro. Ele conta: “Não estando a par do programa da matéria, mandei que os alunos desenhassem o que lhes viesse à cabeça, o que bem quisessem. A experiência foi surpreendente. Vi que essa liberdade representava muito para a formação infantil”. Foi então que começou a dar aulas em seu ateliê e, depois, a convite do MAM Rio, criou o curso de pintura livre.
O artista Waltercio Caldas foi aluno de Serpa e percebeu no professor seu grande conhecimento sobre a produção artística que estava sendo realizada no mundo e o quanto era fascinante vê-lo expressar seus pontos de vista estéticos: “De certa forma Serpa me apontou um parâmetro, não só em relação à arte, mas também em relação ao ambiente cultural”.3 Caldas recorda que os trabalhos realizados no ateliê eram submetidos ao “juízo implacável” de Serpa e percebia a importância de aceitá-lo para o amadurecimento das ideias: “Existe uma coisa boa nos juízos implacáveis, eles são justos, e quando são justos são muito eficientes, […]. Os artistas que frequentavam a aula dele, eu acho que, de certa forma, iam para lá para ter esse tipo de análise, […]. Foi muito importante nesse sentido, se discutia profundamente sobre arte, se discutia profundamente sobre as tendências”.4
Entre 1952 e 1957, os cursos de Serpa para o MAM Rio, tanto para crianças como para adultos, ocorrem no edifício do IPASE (Instituto de Previdência e Assistência dos Servidores do Estado) e no Edifício Municipal, ambos localizados no Centro da cidade do Rio de Janeiro. Neste período o museu estava localizado no pavimento térreo do Palácio Gustavo Capanema, que naquele momento era também sede do Ministério da Educação e Saúde. Com a inauguração do Bloco Escola em 1958, os cursos foram transferidos para as novas instalações do museu. Além das aulas de pintura, Serpa também conduziu encontros ao longo das décadas de 1960 e 1970 sobre orientação artística, pesquisas artísticas, desenho e criação e análise crítica. Em 1971, integrou o formato unificado de aulas proposto por Frederico Morais, o atividade/criatividade, junto a Anna Bella Geiger, Antonio Manuel e Lygia Pape.
Paralelamente aos cursos, Serpa organizou uma série de exposições de pinturas de seus alunos e alunas, inclusive levando alguns trabalhos para o exterior. Destaca-se a primeira mostra realizada no MAM Rio, em 1952, com texto de Mário Pedrosa, crítico de arte determinante na trajetória do artista. O título Arte infantil e a ênfase que emprega acerca da “faculdade criadora” ser “inata” na infância correspondem ao movimento de renovação do ensino de arte naquele momento – um legado da livre expressão impulsionado pela Escola Nova e pelas metodologias da Escolinha de Arte no Brasil, fundada por Augusto Rodrigues e influenciada pelas ideias de Herbert Read e John Dewey.
A “educação pela arte” de Read rege o texto “Crescimento e criação” publicado por Mário Pedrosa e Ivan Serpa em 1954. Os autores enfatizam a importância da atividade espontânea desde que aponte para uma investigação da forma. Para eles, as crianças devem construir uma consciência visual a partir do contato com a própria imaginação, com as emoções e, especialmente, com o conhecimento técnico que certos materiais e instrumentos do campo da arte ofertam à construção de ideias, pensamentos e expressões: “Então se dá a milagrosa integração entre o crescimento da forma e seu próprio crescimento. A gênese da forma é paralela à gênese da imaginação visual da criança”.5
Outro ponto importante a ser considerado é a capacidade inventiva e arriscada que as crianças empregavam em suas pinturas. Serpa reconhecia que o modo como passou a utilizar a cor em sua obra foi influenciado diretamente ao observá-las: “A pintura da criança teve uma influência indireta sobre minha arte. Foi olhando seus quadros que perdi o medo de empregar a cor. A criança não tem medo de empregar a cor”.6
Os cursos de Serpa apostavam na expressão individual de cada aluno, visando à formação do indivíduo emocionalmente livre e autônomo. Suas aulas focavam no gesto espontâneo e no conhecimento da linguagem visual, elementos que a crítica da época redescobriu e valorizou na produção artística dos ateliês dos hospitais psiquiátricos e da prática autodidata de alguns artistas. Esse espaço de experimentação era a chave para a ativação de uma consciência artística distante das convenções de representação. Tratava-se de uma força expressiva que conduzia a criação a um outro modo de se relacionar com os problemas da arte e da vida, fonte de interesse das práticas das vanguardas artísticas das quais Serpa também fazia parte.
[1] Hélio Márcio Dias Ferreira (org.), Ivan Serpa, Rio de Janeiro: Funarte, 2004, p. 181.
[2] Hélio Márcio Dias Ferreira (org.), Ivan Serpa. Rio de Janeiro: Funarte, 2004, p. 49.
[3] Hélio Márcio Dias Ferreira (org.), Ivan Serpa. Rio de Janeiro: Funarte, 2004, p. 70.
[4] Hélio Márcio Dias Ferreira (org.), Ivan Serpa. Rio de Janeiro: Funarte, 2004, p. 81–82.
[5] Mário Pedrosa, “Crescimento e criação”, Dimensões da arte, Rio de Janeiro: MEC, 1964, p. 229.
[6] Hélio Márcio Dias Ferreira (org.), Ivan Serpa, Rio de Janeiro: Funarte, 2004, p. 51.