EXERCÍCIOS DE CRIAÇÃO COLETIVA

Com a iniciativa de Frederico Morais, os Domingos da Criação ocupam as áreas externas do museu.

Em 1965, a ocupação dos pilotis do MAM Rio pelos integrantes da comunidade da Estação Primeira de Mangueira, convidados por Hélio Oiticica para a abertura da mostra Opinião 65, inaugurou um período histórico de criações coletivas, experimentais e públicas realizadas na área externa do museu e em seu entorno. Em 1968, o crítico de arte Frederico Morais organizou o evento Arte no Aterro, promovido pelo jornal Diário de Notícias. Esse acontecimento aproximou frequentadores do Parque do Flamengo de manifestações que integravam as artes plásticas, a poesia, a música, a dança, o teatro e a moda. Foi nessa ocasião que ocorreu a Apocalipopótese, ação orquestrada também por Oiticica, na qual o público, ao lado de artistas e passistas, restituiu o aspecto lúdico da arte.

Desde 1966, Morais vinha atuando como professor de história da arte no MAM Rio, mas foi somente em 1969 que assumiu a coordenação dos cursos e reformulou o programa de aulas. Com exceção do ateliê de gravura, as oficinas livres passaram a funcionar como laboratórios de forma integrada. Além dessas práticas, foram organizados processos de natureza experimental e colaborativa, por exemplo, a Unidade Experimental (1969) fundada por Morais junto a Cildo Meireles, Luiz Alphonsus e Guilherme Vaz. Outro destaque foi o Curso Popular de Arte (1969–1972), voltado para um público mais amplo e oferecido gratuitamente aos domingos no auditório da Cinemateca. A expressiva adesão popular, especialmente no período de férias, quando se observa uma diminuição na frequência de visitantes nos espaços do museu, motivou a criação dos célebres Domingos da Criação.

Cildo Meireles comenta que Morais sempre foi “uma pessoa engajada”, não somente nas suas apreciações críticas, mas também nas ações. O artista considera que a exposição Do corpo à terra, organizada pelo crítico, curador e professor no Parque Municipal em Belo Horizonte (MG) em 1970, foi “pioneira em âmbito internacional” ao convidar artistas pela primeira vez no Brasil a criar obras ao ar livre de caráter efêmero, rompendo com padrões tradicionais de exibição e aproximando os processos de criação do público.1 De acordo com Morais, o contexto da época fez com que muitas obras manifestassem um teor abertamente político. Em suas palavras: “Em toda a minha trajetória como crítico de arte e curador de exposições eu sempre levei em conta aspectos sociais, históricos e políticos para elaborar minhas proposições e minhas ações, mas também acreditei no coletivo e na autonomia dos artistas”.2

No manifesto da mostra, Morais defendeu que o museu de arte deveria propor uma “ação criadora” e “situações artísticas” que se multiplicassem no “espaço-tempo da cidade”,3 ideia que se reafirma em seu “Plano-piloto da futura cidade lúdica” apresentado no IV Colóquio da Associação Brasileira de Museus de Arte (1969). Neste documento, Morais propôs uma noção de ateliê ampliada para qualquer lugar na cidade, defendendo que “a técnica a ser desenvolvida na realização dos trabalhos é aquela adequada aos materiais disponíveis no momento”. Sob essa ótica, cabia ao museu expandir suas funções tradicionais – salvaguarda, exposição e ensino –, projetando-se para a cidade como campo experimental do “livre exercício do jogo, da criação e da imaginação coletiva.” Morais considerou, ainda, que as metas de um “Museu de Arte Pós-Moderna” eram rever a primazia da visualidade, considerar o papel social do artista e “transformar o lazer em atividade criadora”.4

Motivado pela pergunta “o que essas pessoas buscavam no museu?”, Morais realizou uma série de entrevistas com os frequentadores da área externa do MAM Rio. Ele constatou que a experiência no museu incluía a permanência nos jardins, os quais ofereciam espaços de reflexão e lazer individual e coletivo. Sua pesquisa pretendia traçar um “retrato-tipo” do público a fim de programar as atividades institucionais, além de ampliar o próprio conceito de acervo. Para ele, as coleções não se limitavam à reunião de obras de arte, mas abrangiam os elementos que a área externa congregava, como o “silêncio, o barulho, a brisa, a pedra e a vegetação”, constituindo, assim, um “acervo poético”.5 

Diante disso, concebeu os Domingos da Criação como uma “extensão das atividades didáticas” no período das férias de verão, entre janeiro e fevereiro. O sucesso de público e de mídia fez com que as ações se prorrogassem até agosto de 1971. As principais edições foram Um domingo de papel; O domingo por um fio; O tecido do domingo; Domingo terra a terra; O som do domingo; e O corpo a corpo do domingo. A programação atraiu um público imenso e variado, disposto a experimentar junto a artistas proposições integradas ao projeto arquitetônico de Affonso Eduardo Reidy, aos jardins de Roberto Burle Marx e à vista panorâmica da Baía da Guanabara, do Pão de Açúcar e da própria cidade.

Alguns conceitos básicos formulados por Morais fundamentaram as ações: “todas as pessoas são criativas”; “todo material, inclusive lixo industrial e os resíduos do consumo, podem ser trabalhados esteticamente”; “a arte é um bem comum”; e o “relacionamento direto com a criação, dando ênfase à experiência, revelando potencialidades e provocando iniciativas”.6 Segundo o artista Antonio Manuel, os Domingos ofertavam alegria, prazer, criatividade e liberdade poética “em um momento em que o governo não permitia muita aglomeração, muita gente junta, em um momento em que a tensão era grande”.7 Alinhado a essa visão, Carlos Vergara, também artista, aponta que os Domingos democratizaram a arte e a cultura, proporcionando a pessoas de diferentes gerações que colaborassem umas com as outras. Para ele, “era uma ação política, […] o começo dos anos 1970 era também o início dos anos de chumbo da ditadura, mas o mais político de tudo foi essa quebra de distâncias entre artista e público”.8

A integração das linguagens artísticas também foi marcante nos Domingos da Criação. Laboratórios de teatro, música e dança conjugavam movimento e liberdade de expressão. De acordo com a bailarina e coreógrafa Angel Vianna, que facilitou alguns laboratórios junto a Klauss Vianna, “o corpo registra mais do que a própria memória”.9 Sob essa premissa, o corpo, como matéria primordial da criação, foi provocado a se manifestar nas ações, tal como descrito na proposta da época: “lançado no espaço, a ser projetado na tela como sombra, o corpo tenso ou em repouso, o gesto amplo e expressivo, […] o corpo que se contorce, que luta, que defende ou ataca, corpo a corpo, luta corporal. Dança, teatro, mímica, ginástica ou esporte, o Corpo-a-Corpo no Domingo”.10

Como legado direto dessas experiências, os desdobramentos dos Domingos da Criação estenderam-se para a programação de cursos do museu, como o  Atividade/Criatividade (1971),11 ministrado por Anna Bella Geiger, Antonio Manuel, Ivan Serpa e Lygia Pape, e o Papel e Criatividade, conduzido por Carlos Vergara e Paulo Roberto Leal. Soma-se a essas propostas o curso Corpo/Som/Palavra, que foi concebido por Sidney Miller, Klauss Vianna e Paulo Afonso Grisolli. Esta iniciativa impulsionou a criação do departamento Corpo/Som (1972–1978) no museu. Sob a coordenação de Miller, em 1974 a sala Corpo/Som sediou o Poemação, evento que reuniu cerca de quatrocentos poetas de várias regiões do país e teve como tema a retomada do impulso criador pela palavra.12 Além desta efervescência, outros eventos experimentais marcaram o calendário de exposições do museu, como as históricas mostras Circumambulatio, de Anna Bella Geiger, e Ex-posição, de Carlos Vergara, ambas em 1972.


[1] Cildo Meireles, “Entrevistas”, em Frederico Morais e Jessica Gogan (orgs.), Domingos da Criação: uma coleta poética do experimental em arte e educação, Rio de Janeiro, Instituto Mesa, 2017, p. 216.

[2] Frederico Morais, “Do Corpo à Terra, Objeto e Participação: cinquenta anos depois”, Revista UFMG, Belo Horizonte, v. 28, n. 2, pp. 202-219, mai.-ago. 2021.

[3] Frederico Morais, “Do Corpo à Terra, Objeto e Participação: cinquenta anos depois”, Revista UFMG, Belo Horizonte, v. 28, n. 2, pp. 202-219, mai.-ago. 2021.

[4] Frederico Morais, “Plano-piloto da futura cidade lúdica”, Correio da Manhã, Rio de Janeiro, 6 jun., 1970.

[5] Frederico Morais, “O público do MAM”, O Jornal, Rio de Janeiro, 11 mar. 1973.

[6] Frederico Morais, “No fazer criador todos se confundem”, em Frederico Morais e Jessica Gogan (orgs.), Domingos da Criação: uma coleta poética do experimental em arte e educação, Rio de Janeiro: Instituto Mesa, 2017, p. 5.

[7] Antonio Manuel, “Entrevistas”, em Frederico Morais e Jessica Gogan (orgs.), Domingos da Criação: uma coleta poética do experimental em arte e educação, Rio de Janeiro: Instituto Mesa, 2017, p. 203.

[8] Carlos Vergara, “Entrevistas”, em Frederico Morais e Jessica Gogan (orgs.), Domingos da Criação: uma coleta poética do experimental em arte e educação, Rio de Janeiro: Instituto Mesa, 2017, p. 209.

[9] Angel Vianna, “Entrevistas”, em Frederico Morais e Jessica Gogan (orgs.), Domingos da Criação: uma coleta poética do experimental em arte e educação, Rio de Janeiro: Instituto Mesa, 2017.

[10] “O Corpo a corpo da criação”, Rio de Janeiro, Jornal do Brasil, Caderno B, 29 ago. 1971.

[11] O título do curso Atividade/Criatividade foi ideia de Lygia Pape em homenagem a Mário Pedrosa, que menciona o termo em uma entrevista com Antonio Manuel, Hugo Denizart e Alex Varella em 1970 sobre a apresentação de Manuel, “O Corpo é a Obra”, na abertura do XIX Salão Nacional de Arte Moderna.

[12] “Poemação: a retomada do impulso criador”, Rio de Janeiro, Jornal do Brasil, 23 nov. 1974. 

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