INCÊNDIO E RECONSTRUÇÃO

O incêndio no Bloco de Exposições em 1978 e o movimento de reinvenção do museu.

A escultura em bronze polido Mlle. Pogany II (1920), de Constantin Brancusi, foi a emblemática obra escolhida para estampar a capa da revista Arte hoje sobre o incêndio que atingiu o Bloco de Exposições do MAM Rio. A chamada “O MAM renascerá”, junto à imagem da obra danificada, tornou-se o símbolo da campanha de reconstrução. O episódio, ocorrido na madrugada de 8 de julho de 1978, consumiu metade do acervo de artes visuais, a biblioteca e cerca de duzentas obras da exposição Arte agora III – América Latina: geometria sensível, com um conjunto da fase construtiva do artista uruguaio Joaquín Torres García.

Após o incêndio, Roberto Pontual, curador da exposição e coordenador do departamento de exposições do museu, publicou um artigo no Jornal do Brasil intitulado “MAM. Mãos à obra”, no qual compara a experiência do incêndio ao processo de criação do artista, considerando que ambos os fenômenos participam de um “dado de purgação, de purificação: passagem de um estado de desordem e impureza […] a outro de união e equilíbrio”. Favorável à reconstrução a partir de novos parâmetros com o objetivo de “repensar todo – absolutamente todo – o museu”, convoca a população “a pôr as mãos à obra” e a “degluti-la, em memória”, considerando “o passado como aprendizado, o futuro como redenção”.1 

O desaparecimento de parte de uma das coleções mais importantes da cultura nacional despertou a atenção pública para a vulnerabilidade do patrimônio cultural no Brasil. Diante disso, o editorial da revista Arte hoje convocou a sociedade a se engajar na reconstrução: “O MAM renascerá, mas deve renascer junto a um amplo debate sobre a realidade de nossas instituições culturais e artísticas. O acúmulo das cinzas não deve ofuscar uma serena visão sobre a realidade dos nossos bens culturais. O trágico alerta de um museu em chamas não é um bom signo para se começar a pensar essa realidade, mas será para nós um signo imperecível e um compromisso com a luta”.2

O incêndio no MAM Rio foi amplamente divulgado e discutido nos principais veículos de comunicação. Causas, consequências, testemunhos, medidas de apoio e etapas da reconstrução foram noticiadas quase diariamente. Essa cobertura contínua atualizava tanto os leitores familiarizados com o circuito artístico quanto aqueles que tomavam consciência, pela primeira vez, da própria existência do museu. Assim, os dilemas e os embates conceituais sobre como reconstituir o acervo e recuperar os espaços destinados à prática experimental ganharam dimensão pública.

Quatro comissões foram criadas em prol da reconstrução do museu. A primeira delas, a Comissão de Reconstrução do MAM Rio, presidida pelo embaixador Hugo Gouthier, contava com um conselho formado pelo então presidente Ivo Pitanguy, pela diretora-executiva Heloísa Lustosa, além de outros diretores e conselheiros. Também foi instituída uma Comissão de Museologia, composta por Niomar Moniz Sodré, presidente de honra do MAM Rio e chefe da comissão, pelo crítico de arte Mário Pedrosa, por Edson Motta, então diretor do Museu Nacional de Belas Artes (MNBA) e responsável pela restauração de parte do patrimônio resgatado, por Karl Heinz Bergmiller, coordenador do Instituto de Desenho Industrial (IDI), sediado no museu, e por Carlos Flexa Ribeiro, então membro do Conselho Deliberativo do museu e presidente da Associação Internacional dos Críticos de Arte – AICA. A terceira, a Comissão de Solidariedade ao MAM, formada por artistas, críticos de arte e diretores de entidades culturais de São Paulo, concentrou-se nos debates sobre a reestruturação do acervo e a missão do museu como centro cultural. Nas palavras de Aracy Amaral, à época diretora da Pinacoteca do Estado de São Paulo: “A função de um centro de cultura dentro da sociedade é muito grande e se ficarmos restritos apenas à recuperação de seu acervo, estaremos fugindo dessa perspectiva maior.”3

Por fim, estruturou-se nas dependências da Escola de Artes Visuais do Parque Lage a Comissão Permanente para a Reconstrução do MAM, formada por um grupo de artistas e críticos sob a coordenação de Mário Pedrosa. Esta comissão tinha como objetivo realizar assembleias populares para sensibilizar a sociedade sobre a gravidade do ocorrido, alertando a opinião pública para o descaso com o patrimônio artístico-cultural do país. O crítico enfatizava a urgência da adesão popular, sobretudo do público que frequentava o museu: “A participação popular é fundamental para mostrar a preocupação da coletividade com a extraordinária importância do MAM para o Rio”.4 Um manifesto escrito por esse grupo foi lido pela atriz Bibi Ferreira na primeira assembleia geral, realizada uma semana após o incidente nos pilotis do museu. Essa grande mobilização reuniu mais de 3 mil pessoas, entre artistas, estudantes, intelectuais e representantes de instituições culturais, transformando-se em um ato de denúncia contra o abandono do patrimônio artístico, cultural, histórico e ambiental em todo território nacional.

O MAM Rio era uma instituição administrada pela iniciativa privada, porém atrelada aos repasses dos recursos públicos. A tragédia do incêndio acabou por descortinar uma crise estrutural muito mais ampla e compartilhada por outros espaços culturais da época: a escassez de verbas, a vulnerabilidade das reservas técnicas e a deterioração do patrimônio. Assim, o debate sobre a reconstrução transcendeu o próprio museu, consolidando-se na pauta nacional e impulsionando questionamentos sobre as políticas de fomento e salvaguarda destinadas ao setor artístico e cultural do país.

Mário Pedrosa, principal articulador dos debates em torno da reinvenção do MAM Rio naquele momento, pensava que era preciso “criar um novo MAM, com outras finalidades”. Alegava que não era possível reconstruir o museu segundo sua concepção original: “A situação mudou, os tempos são outros, a filosofia, ou mesmo a ideologia que inspirou os que fizeram o museu há mais de 20 anos atrás, mudou”.5 Nessa perspectiva, formulou o projeto Museu das Origens, que previa a integração de cinco museus: Museu do Índio, Museu do Inconsciente, Museu de Arte Moderna, Museu do Negro e Museu de Artes Populares. A proposta indicava um amplo acervo composto por obras que compreendessem o final do século 19 até as proposições contemporâneas, prevendo salas permanentes dedicadas a artistas latino-americanos, europeus e norte-americanos. Além disso, conferia especial atenção à tradição abstrato-geométrica, confirmando o papel do MAM Rio como apoiador das principais vertentes construtivas do país, desde a efervescência inicial do Grupo Frente e o rigor dos concretos paulistas até a ruptura poética da arte neoconcreta, culminando na emblemática exposição Projeto construtivo brasileiro na arte, em 1977.6 Por diferentes razões que envolviam a complexidade de implantação de uma estrutura desse porte, o projeto não avançou, mas antecipou as discussões contemporâneas sobre pluralidade, representatividade e valorização dos saberes tradicionais e modernos no âmbito das instituições culturais.

Parte da concepção do Museu das Origens reverberou na reconstrução do acervo do MAM Rio, visível nas aquisições de obras de artistas latino-americanos e na posterior integração de produções nacionais. O crítico e curador Paulo Herkenhoff, que demonstrou afinidade com as teses de Pedrosa, foi o responsável pela segunda fase de reconstrução do museu. No relatório “Reconstrução 1985/1987”, Herkenhoff constatou a necessidade de implementar “novos padrões de eficiência e responsabilidade” para a recuperação dos espaços e a constituição do acervo, considerando o Rio de Janeiro como o “principal centro turístico da América do Sul”. Para tanto, articulou uma rede de “solidariedade mundial” mobilizando doações internacionais, além da colaboração de artistas, colecionadores, galeristas e instituições brasileiras que cooperaram para consolidar o que viria a ser uma das mais completas coleções de arte do país.7

Atualmente, o acervo de artes visuais do MAM Rio é composto por três grandes coleções que somam mais de 16 mil obras, divididas entre pinturas, desenhos, gravuras, esculturas, instalações, fotografias e mídias contemporâneas. Desde 1993, o museu conserva em regime de comodato a Coleção Gilberto Chateaubriand. Sob a mesma condição, a instituição abriga, desde 2005, a Coleção Joaquim Paiva. Por fim, a Coleção MAM conta com cerca de 7 mil obras, resultado de doações de artistas e aquisições estratégicas. Ao longo dos anos 1980, a programação cultural foi sendo reativada, até que em 1990 o museu passou a contar com um novo espaço, o Galpão das Artes, que acolheu parte dos cursos, exposições e espetáculos de música e dança realizados pelo MAM. 


[1] Roberto Pontual, “Mão à obra”, em Isabela Pucu e Jacqueline Medeiros (org.), Roberto Pontual: obra crítica, Rio de Janeiro: Azougue Editorial, 2013, p. 464. 

[2] Revista Arte hoje, n. 14, ano 2, ago. 1978.

[3] “Apoio dos artistas de São Paulo”, Folha de São Paulo, São Paulo, 15 jul. 1978.

[4] Mobilização popular para reerguer o MAM, Folha de São Paulo, São Paulo, 10 jul. 1978.

[5] “Dois documentos sobre o MAM”, Tribuna da Imprensa, Rio de Janeiro, 19 jul. 1978.

[6] “Os tempos são outros: O novo museu terá cinco museus. É a proposta de Mário Pedrosa”, Jornal do Brasil, Rio de Janeiro, 15 set. 1978.

[7] Relatório “Reconstrução 1985/1987”, Museu de Arte Moderna do Rio de Janeiro, s.d.

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