Série de exposições marca o comodato da coleção de fotografias no MAM Rio.
A coleção de fotografias de Joaquim Paiva está em comodato no MAM Rio desde 2005. O museu celebrou a chegada com a exposição Demasiado humano – Coleção Joaquim Paiva (2006), com curadoria de Fernando Cocchiarale, então curador chefe de artes visuais do museu. A mostra apresentou um panorama da fotografia brasileira com cerca de 200 registros de nomes como Claudia Andujar, José Medeiros, Américo Vermelho, Rochelle Costi, Regina Alvarez, Milton Guran, Ana Regina Nogueira, Vicente de Mello e Eustáquio Neves. Para Cocchiarale, “a coleção de Joaquim Paiva é uma das maiores do Brasil, com fotos que vão do período moderno até o contemporâneo. Recebemos a coleção em regime de comodato e temos certeza de que o museu ficará ainda mais enriquecido com este presente”.1
Joaquim Paiva (Espírito Santo, 1946), formado em direito e diplomata, iniciou sua atividade como fotógrafo quando chegou a Brasília, na década de 1970. Paiva registrou os trabalhadores do Núcleo Bandeirante em cores, em contraponto às inúmeras fotografias em preto e branco que estavam sendo produzidas na capital. A Brasília monumental tornou-se, então, pano de fundo das cenas do cotidiano que formaram um conjunto de aproximadamente 78 fotografias. Foi a partir dessa experiência que o fotógrafo percebeu a importância de preservar o arquivo que vinha constituindo, reconhecendo seu profundo valor histórico.2
Nesse momento, descobriu a produção fotográfica brasileira publicada em jornais e revistas, como o fotojornalismo de Miguel Rio Branco, Luís Humberto e Walter Firmo. Ao mesmo tempo, percebeu também a dimensão estética e sensível contida nessas imagens: “Sabia que havia muita coisa sendo produzida além do fotojornalismo, não só fotografias comprometidas com a realidade, com a ideologia e questões sociais, mas também coisas que os fotógrafos faziam para expressar a sua própria realidade”.3 Iniciou sua coleção em 1978 com a aquisição de obras da fotógrafa estadunidense Diane Arbus, e nesse mesmo ano, entrou em contato com Miguel Rio Branco e adquiriu três fotografias. Ao longo da década de 1980 continua com as aquisições, reunindo cerca de 2.700 obras de artistas de diferentes estilos e nacionalidades, representando a história da fotografia moderna e contemporânea. Em sua coleção, figuram séries de Sebastião Salgado, Mario Cravo Neto, Alair Gomes, Cristiano Mascaro, Elza Lima, Rogério Reis e o uso da fotografia nas artes visuais, como nos trabalhos de Rosângela Rennó e Fernando Laszlo.
A partir do comodato, a coleção de Joaquim Paiva integra uma série de mostras temáticas junto às fotografias da Coleção Gilberto Chateaubriand, como parte do acervo MAM Rio. A exposição Foto 90 (2007), com curadoria de Fernando Cocchiarale e Franz Manata, reuniu cerca de 90 trabalhos realizados entre os anos 1990 e 2000 por fotógrafos contemporâneos que se dedicaram à prática experimental fazendo uso de imagens já existentes, colagens e intervenções combinadas a outros suportes. No ano seguinte, o MAM Rio programou uma itinerância da coleção em Madri com a exposição La mirada del coleccionista: Fotografía brasileña contemporánea de la colección Joaquim Paiva, evidenciando sua dupla perspectiva: como fotógrafo, autor de suas próprias imagens, e como colecionador, participante ativo da vida cultural, experimental e artística de seu tempo.
Em 2011, Paiva acrescentou à coleção em comodato no MAM Rio 413 obras de fotógrafos internacionais. Ele foi convidado por Luiz Camillo Osorio, então curador do museu, a montar uma mostra desta doação, na qual reuniu 69 artistas internacionais com cerca de 134 obras representadas pela artista alemã Grete Stern, pelo peruano Martín Chambi, pelos estadunidenses Diane Arbus e Ansel Adams, pela iraniana Niloufar Banisadr, entre outros artistas. Em 2015, a coleção voltou a ganhar destaque com a exposição Limiares – A coleção Joaquim Paiva, com curadoria de Osorio e Marta Mestre. A mostra ofereceu um recorte sobre o ato de colecionar como uma ponte entre o gesto privado e público: retratos, flagrantes de cenas cotidianas, registros de caráter documental e aproximações às artes visuais puderam ser apreciados nos trabalhos de Jac Leirner, Anna Maria Maiolino, Artur Barrio, Nuno Ramos, e Maurício Dias e Walter Riedweg.
[1] Alessandra de Paula, “Demasiado humano: aula de fotografia no MAM”, Jornal do Commercio, Rio de Janeiro, 20 out. 2006.
[2] Depoimento de Joaquim Paiva para o programa “Joaquim Paiva | No Olhar #20 | Fotografia Brasileira” do canal NoOlhar.Tv.
[3] Nahima Maciel, “Passado colorido, Joaquim Paiva expõe imagens que registrou no Núcleo Bandeirante nos anos 70”, Senado Federal, 30 abr. 2000.