OPINIÃO 65 E OPINIÃO 66

Duas mostras emblemáticas nos anos iniciais da ditadura militar.

As exposições Opinião 65 e Opinião 66 foram organizadas pela crítica Ceres Franco e pelo colecionador e marchand Jean Boghici no MAM Rio em 1965 e 1966, respectivamente, com o apoio da diretora executiva adjunta Carmen Portinho. As mostras reuniram artistas nacionais e internacionais e se destacaram na história e na crítica da arte pelo tom de ruptura que algumas proposições artísticas apresentavam em relação à arte daquele momento, e pelas reações de outras à imposição da ditadura militar no país. Segundo Frederico Morais: “Era a primeira vez depois do golpe militar que um grupo de artistas se reunia para opinar, com suas obras, sobre a nova situação política brasileira”.1

A escolha do título das exposições se alinhava à atmosfera de contestação da época, impulsionada pelo Grupo Opinião, que reuniu no Rio de Janeiro colaboradores da comunidade artística – teatro, cinema, literatura, música e artes visuais – em um esforço conjunto de protesto e resistência ao regime de opressão, coerção e censura que se instalava no país. 

Opinião 65 é uma exposição de ruptura. […] A jovem pintura pretende ser independente, polêmica, inventiva, denunciadora, crítica, social, moral. Ela se inspira tanto na natureza urbana imediata quanto na própria vida com seu culto diário de mitos.” (Cérès Franco)2

O entusiasmo de Franco devia-se à proximidade que ela percebia entre o trabalho dos jovens artistas locais com a arte que estava sendo exibida no Salon de la Jeune Peinture e na exposição Mythologies Quotidiennes (1964), de Gérald Gassiot-Talabot, ambas em Paris, e na mostra Nova figuração – escola de Paris (1964), que ela organizou junto a Jean Boghici na Galeria Relevo no Rio de janeiro. As inovações artísticas, o uso de novos materiais e o diálogo com a cultura visual de massa mobilizaram seu interesse em realizar a mostra na cidade do Rio de Janeiro, que então comemorava seu quarto centenário. O objetivo era apresentar e promover uma juventude artística engajada na renovação dos meios da arte, focada na exploração dos limites da pintura e da escultura e na crítica à realidade política.

Artistas como Angelo de Aquino, Antonio Dias, Carlos Vergara, Flávio Império, Ivan Serpa, Pedro Escosteguy, Roberto Magalhães, Rubens Gerchman, Waldemar Cordeiro e Wesley Duke Lee, alinhados à expressividade das correntes internacionais como otra figuración, pop art, nouveau réalisme ou figuration narrative, somadas à presença de Hélio Oiticica com seus inéditos Parangolés criados junto à comunidade da Estação Primeira de Mangueira, expandiram a prática artística do campo visual para outras experimentações de natureza crítica, reflexiva, sensorial e, sobretudo, política. Para o poeta e crítico de arte Ferreira Gullar, “uma arte de opinião pode, por sua própria natureza crítica, objetiva, tornar-se um movimento internacional sem eliminar os elementos peculiares a cada cultura, a cada país, a cada região”.3

Opinião 66 reforçou um ano depois essa posição frente à produção contemporânea ao ampliar o número de representantes dessa vanguarda artística. A mostra reiterou as convicções estéticas e políticas que mobilizaram a edição inaugural, trazendo a público depoimentos de artistas sobre a arte atual, como os de Gerchman: “O momento que nós vivemos é apenas para os que estão profundamente atentos, pois somente soluções novas podem atender aos problemas da liberdade.”4

Esta segunda mostra ampliou a representatividade de mulheres artistas, com a inclusão de obras de Anna Maria Maiolino, Lygia Clark, Maria do Carmo Secco, Thereza Simões e Vilma Pasqualini, a qual já havia contribuído na primeira edição. O evento também gerou um debate expressivo na imprensa sobre a afirmação de uma “antiarte” que abarcava, além de outras premissas, a participação do público no gesto criador.

Ou, nas palavras de Hélio Oiticica: “A participação do espectador é fundamental aqui, é o princípio do que se poderia chamar de ‘proposições para a criação’, que culmina no que formulei de antiarte. Não se trata mais de impor um acervo de ideias e estruturas acabadas ao espectador, mas de procurar pela descentralização da ‘arte’, pelo deslocamento do que designa como arte, do campo intelectual, racional, para o da proposição criativa vivencial”.5 


[1] Frederico Morais, “Opinião 65: um ícone da arte brasileira”, em Max Perlingeiro, Opinião 65: 50 anos depois, Rio de Janeiro: Pinakotheke, 2015, p. 31.

[2] Ceres Franco, Opinião 65, Rio de Janeiro: MAM, 1965. Catálogo de exposição. Acervo MAM Rio.

[3] Ferreira Gullar, “Opinião 65”, em Max Perlingeiro, Opinião 65: 50 anos depois, Rio de Janeiro: Pinakotheke, 2015, p. 53.

[4] Rubens Gerchman, Opinião 66, Rio de Janeiro: MAM, 1966. Catálogo de exposição. Acervo MAM Rio.

[5] Hélio Oiticica, “Propostas 66: vanguarda no Brasil”, em Jayme Maurício, Itinerário das Artes Plásticas, Correio da Manhã, Rio de Janeiro, 1966. Acervo MAM Rio.

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