Três exposições do crítico e curador Roberto Pontual apresentam a arte da década.
O VII Salão de Verão, em 1975, teve como um dos júris o crítico de arte Roberto Pontual. Foram cerca de mil artistas inscritos, seiscentos trabalhos apresentados e um pouco mais de 130 artistas selecionados. O volume de artistas e obras decorreu das alterações de algumas normas que regiam os regulamentos anteriores. Dessa vez, artistas que já tinham recebido algum prêmio poderiam se inscrever de novo, e foi permitida também a flexibilização das categorias. Nas edições anteriores admitiam-se apenas artistas não premiados, e a escolha da categoria deveria ser definida exclusivamente pelas linguagens da pintura, do desenho, da gravura, escultura ou do objeto. Nas palavras de Pontual: “Deixamos de lado a velha tradição da compartimentação por categorias estanques […], permitindo ao artista comparecer com qualquer tipo de trabalho, na categoria que lhe interesse ou que ele próprio invente”.1
O principal patrocinador do Salão de Verão foi o Jornal do Brasil, em parceria com o MAM Rio. Pontual era colunista da seção de Artes Plásticas do JB desde 1974 e, um ano antes, já atuava como diretor do Setor de Cursos e do Departamento de Exposições do museu. Preocupado com o destino do Salão de Verão que, para o crítico e curador, vinha “carente de qualidade e interesse” pelo número de artistas participantes ainda em fase inicial de trabalho, decidiu aperfeiçoá-lo e adaptá-lo a novas direções. Sua estratégia consistiu em uma “experiência de transição” que culminaria, no ano seguinte, na remodelação completa da mostra, convertendo-se no título geral Arte agora.
Assim, o Salão de Verão que ocorria anualmente no MAM Rio entre 1969 e 1975 foi substituído por três mostras Arte agora (1976–1978), com o patrocínio do Jornal do Brasil, da Empresa Light e do colecionador Gilberto Chateaubriand. A primeira edição desse novo formato expositivo se justificava pelo distanciamento dos “salões, bienais e congêneres” em favor da “viva atualidade da produção artística”. Pontual havia observado essa dinâmica em Nova Iorque, quando viajou a encargo do museu para visitar os programas expositivos do MoMA, do Guggenheim e do Whitney Museum. Ele comentou: “Abandonando o velho sistema do salão e do concurso, e pretendendo fornecer um panorama do que se está produzindo de mais atual entre as novas gerações […] a direção do museu entrega a seus curadores fixos toda a tarefa de planejá-la e executá-la”.2
Para a mostra Arte agora I: Brasil 70-75 (1976), Pontual estabeleceu que não haveria inscrição prévia de trabalhos, mas uma análise da produção de cada artista realizada por uma comissão que viajaria pelas capitais brasileiras a fim de recolher dossiês da “produção local”. A comissão foi composta por Aline Figueiredo, então presidente da Associação Mato-Grossense de Artes e professora da UFMT; Olívio Tavares de Araújo, à época editor de arte da revista Veja; pelos críticos de arte e artistas João Câmara Filho e Márcio Sampaio, este último responsável pelo setor de artes visuais do Palácio das Artes de Belo Horizonte; e pelo próprio Pontual, representante do JB e do MAM Rio. Com isso, esperava-se compor uma mostra que funcionasse como um panorama nacional, “senão completo, pelo menos suficientemente atualizado e diversificado do melhor que se está produzindo hoje, entre nós, sobretudo através do esforço de uma geração de artistas nascidos nos anos 1940”.3
Esse novo formato gerou uma série de questionamentos quanto à composição da comissão e aos critérios de seleção. Diante disso, parte dos cem selecionados decidiu não integrar a exposição e assinou um manifesto justificando sua retirada, gerando um debate expressivo na imprensa que se estendeu ao comportamento da crítica no circuito de arte. Entre eles, estavam Paulo Herkenhoff, Ivens Machado, Waltercio Caldas, Antonio Manuel, Tunga, Ascânio MMM, Anna Maria Maiolino, Cildo Meireles, José Resende e Raul Córdula.
Entre os principais destaques que permaneceram na mostra, do Rio de Janeiro estavam Darcílio Lima, Edival Ramosa, Luís Aquila, Luiz Alphonsus, Paulo Roberto Leal, Raymundo Colares e Wanda Pimentel. De São Paulo, participaram Claudio Tozzi, o grupo Arte/Ação (1974/1977), formado por Francisco Iñarra e Genilson Soares, Luiz Paulo Baravelli, Massuo Nakakubo, Megumi Yuasa e Michinori Inagaki; Minas Gerais foi representado pelo grupo audiovisual composto por Paulo Emílio Lemos, George Helt e Maurício Andrés; Manfredo de Souzanetto, vindo do norte do Vale do Jequitinhonha; do Espírito Santo, foi selecionado Atílio Gomes Ferreira (Nenna); de Pernambuco, a dupla Paulo Bruscky e Daniel Santiago; da Bahia, Mario Cravo Neto; e Flávio Tavares, da Paraíba; de Mato Grosso, Clóvis Irigaray e João Sebastião da Costa; de Mato Grosso do Sul, Humberto Espíndola. Por fim, do Paraná, Carlos Eduardo Zimmermann; Eduardo Cruz, do Rio Grande do Sul, e Elke Hering Bell, de Santa Catarina.
Para a segunda edição, Visão da Terra (1977), Pontual reforçou em seu texto de apresentação os argumentos para a extinção do Salão de Verão. Embora reconhecesse o destaque da antiga proposta na revelação do “artista jovem ou emergente”, o crítico apontava a necessidade de superá-la pelas novas diretrizes da proposta da Arte agora: “Seu princípio básico era, e é, o da flexibilidade. Ao invés de persistir ano a ano com um só tipo de mostra, obedecendo rigidamente a um regulamento imutável, a Arte agora propôs-se desde logo a ser uma manifestação distinta a cada edição, podendo com isto acompanhar e adaptar-se melhor às circunstâncias, carências e urgências do momento de sua realização, ainda de periodicidade anual”.4
O crítico selecionou pessoalmente doze artistas que integrariam a segunda exposição e convidou um grupo de intelectuais que contribuíram com textos sobre os artistas escolhidos como representantes da “visão da terra”. O organizador da mostra esclarece que o princípio norteador da escolha dos nomes para compor essa exposição foi o da “consistente ligação” desses artistas com sua própria realidade, apresentando por meio de suas obras “uma atmosfera ou uma militância de brasilidade”.5 Os comentários críticos ficaram a cargo de Ferreira Gullar, Olívio Tavares de Araújo, Clarival do Prado Valladares, César Leal, Sheila Leirner, Ariano Suassuna, Aline Figueiredo, Jayme Maurício, Angelo Oswaldo de Araújo Santos, Antônio Houaiss, Frederico Morais e do próprio Pontual.
Foram analisadas as pinturas, cerâmicas e xilogravuras dos artistas pernambucanos Francisco Brennand e Gilvan Samico; a religiosidade manifestada nas pinturas do sergipano Antonio Maia; a poética visual de signos e símbolos dos cultos afro-brasileiros presentes nas pinturas, relevos e objetos do baiano Rubem Valentim em diálogo com as xilogravuras e esculturas de Emanoel Araújo; o artista mato-grossense Humberto Espíndola, selecionado na primeira edição, com uma série de obras sobre a “bovinocultura”; as pinturas dos artistas Glauco Rodrigues, Antonio Henrique Amaral e Marcio Sampaio sob a ótica da antropofagia de Oswald de Andrade; o humor “mordaz” do desenhista Millôr Fernandes; e a aproximação das pesquisas sobre “os modos de encarar e lidar com a terra”, de Frans Krajcberg e Ione Saldanha.
A terceira e última exposição dessa série, América Latina: geometria sensível (1978), procurou mapear a produção plástica nacional e internacional. A seleção incluiu, preferencialmente, um conjunto de artistas vivos “nascidos e/ou residentes em diferentes países da América Latina”. A proposta apresentou em seu bojo conceitual a fase construtiva de Joaquín Torres García, cuja “presença pioneira” foi o ponto de partida para a mostra.
A organização da exposição editou um livro para representar um testemunho não somente do conjunto de obras selecionado, sobretudo da fase inédita de Joaquín Torres García no Brasil, mas também de uma coleção de depoimentos de artistas e ensaios críticos. O interesse de Angel Kalenberg, à época diretor do Museu Nacional de Artes Plásticas de Montevidéu, em realizar uma retrospectiva do período construtivista do artista uruguaio no MAM Rio, seguindo os moldes da mostra realizada no Museu de Arte Moderna de Paris (1975), a sala latino-americana da Bienal de Paris, bem como a mostra do Projeto Construtivo Brasileiro na Arte realizado no MAM Rio e na Pinacoteca de SP, motivou Pontual a criar dois núcleos expositivos para Geometria sensível. O primeiro dedicado à apresentação de cerca de sessenta telas de grandes dimensões e uma série de objetos de madeira de Torres García, e o segundo voltado a um conjunto de produções de artistas latino-americanos implicados nos processos construtivos em arte.
Deste segundo núcleo, Pontual destacou as obras dos venezuelanos Alejandro Otero e Jesús Rafael Soto; dos colombianos Edgar Negret, Omar Rayo, Carlos Rojas e Ana Mercedes Hoyos; do Peru, Orlando Condesso; do Uruguai, além de Torres García, figuraram Washington Barcala e Nelson Ramos; da Argentina, Marcelo Bonevardi, Mercedes Esteves e Jacques Bedel; do México, Enrique Carbajal Sebastian e Vicente Rojo; e, do Brasil, Adriano de Aquino, Alfredo Volpi, Mira Schendel, Amilcar de Castro, Arcangelo Ianelli, Rubem Valentim, Eduardo Sued, Avatar Moraes, Antonio Dias, Paulo Roberto Leal, Ronaldo do Rego Macedo e Wilson Alves. Em decorrência do incêndio na madrugada de 8 de julho de 1978, essa terceira edição da Arte agora foi drasticamente interrompida, causando imensa comoção pública.
[1] Roberto Pontual, “Um novo Salão de Verão”, Jornal do Brasil, Rio de Janeiro, 11 dez. 1974.
[2] Roberto Pontual, “De uma viagem a Nova Iorque II. Os usos de mostrar a arte”, Izabela Pucu; Jacqueline Medeiros (org.). Roberto Pontual: obra crítica, Rio de Janeiro, Azougue Editorial, 2013, p. 238.
[3] Roberto Pontual, “Arte Agora II. Visão da Terra”, Rio de Janeiro, Jornal do Brasil, 19 abr. 1977.
[4] Roberto Pontual, “Arte Agora II. Visão da Terra”, Rio de Janeiro, Jornal do Brasil, 19 abr. 1977.
[5] Roberto Pontual, “Arte Agora II. Visão da Terra”, Rio de Janeiro, Jornal do Brasil, 19 abr. 1977.
[6] Roberto Pontual, “Arte Agora II. Visão da Terra”, Rio de Janeiro, Jornal do Brasil, 19 abr. 1977.