As exposições da Área Experimental (1975-1978) e a investigação crítica da arte e do seu sistema.
Desde sua criação, o MAM Rio vinha se consolidando no circuito de arte como uma instituição promotora de poéticas visuais inovadoras, além de discutir seu próprio papel na difusão de uma produção artística contemporânea. Marcos históricos como as exposições do Grupo Frente (1955), do movimento neoconcreto (1959), Opinião 65 (1965), Opinião 66 (1966) e Nova objetividade brasileira (1967), somados às atividades da Unidade Experimental (1969) e aos Domingos da Criação (1971), contribuíram para dar forma a uma instituição em que o exercício da liberdade de criação e a experimentação seriam sistematicamente apresentados e seus limites discutidos.
A Unidade Experimental foi criada por Frederico Morais, então coordenador do programa de cursos, em parceria com os artistas Cildo Meireles, Guilherme Vaz e Luiz Alphonsus. Esta iniciativa introduziu, pela primeira vez, a palavra experimental no programa de atividades do museu. O projeto contou também com a colaboração de Anna Bella Geiger e funcionava como um laboratório interdisciplinar que articulava pesquisa e investigação do corpo e de seus sentidos como o centro da produção artística. A Unidade também estava interessada no perfil dos visitantes do museu e em uma noção de acervo expandida, considerando a paisagem como parte de seu patrimônio. Além disso, procurou construir diálogos transversais com outros departamentos do museu, como a Cinemateca, a Biblioteca e o Corpo/Som, dedicado a práticas sonoras e performáticas.
Em continuidade ao laboratório experimental e à presença maciça de público no Curso Popular de Arte, gratuito aos domingos, Frederico Morais criou em 1971 os Domingos da Criação na área externa do museu. O projeto funcionava no formato de um ateliê a céu aberto, em que materiais de naturezas diversas, incluindo matéria orgânica, recicláveis e resíduos, estavam à disposição de artistas que propunham ações junto ao público, com foco na livre criação.
A consolidação do ambiente do museu voltado à renovação das práticas e dos meios da arte refletiu-se nas mostras coletivas que o MAM Rio abrigou ao longo da década de 1970: o Resumo JB (1965–1972), o Salão da Bússola (1969), o Salão de Verão (1969–1975) e as mostras Arte agora (1975–1978). Contudo, desenhava-se um interesse de artistas e críticos de arte em expor uma nova produção contemporânea que se diferenciava dos interesses de mercado e que articulava, fundamentalmente, prática experimental e pensamento crítico: “Em teoria esta proposta representava um progresso na programação do MAM, não só porque mais representativa das funções culturais de um museu, como também pelo seu caráter de atualização, uma vez que as mostras vinham ficando cada vez mais defasadas do presente”.2
Neste momento o museu inicia um programa de exposições dedicado a projetos comprometidos com uma investigação crítica da arte e de seu sistema. A Área Experimental, em operação de 1975 a 1978, quase sempre no terceiro andar do Bloco de Exposições, apresenta uma série de mostras que contribuem nos debates e problematizações decorrentes das políticas culturais características do período. O investimento em uma sala que abrigasse novas linguagens também estimulava a possibilidade de reagir às consequências de uma década de ditadura militar no Brasil e ao crescente controle do mercado. Esta lógica reguladora estendia-se também às instituições de arte (inclusive ao museu) e à crítica especializada sobre os critérios de seleção e exposição dos trabalhos de arte. Diante desse cenário, a Área Experimental foi criada com a intenção de solucionar a equação produção-pesquisa-exposição em um ambiente institucionalizado.
Artistas como Emil Forman, Ivens Machado, Cildo Meireles, Anna Bella Geiger e Tunga, em 1975; Letícia Parente, Carlos Zílio, Lygia Pape, Regina Vater, Waltercio Caldas, Sonia Andrade e Amélia Toledo, em 1976; Arlindo Daibert, Luiz Alphonsus, Dinah Guimaraens, Lauro Cavalcanti, em 1977; e Mauro Kleiman, Orlando Mollica e Essila Burello, em 1978, realizaram exposições que investigavam a pintura, as artes gráficas, a fotografia, a colagem, a escultura, os objetos, a instalação, o audiovisual e a performance, em diálogo com as heranças neoconcretas e com a produção recente do minimalismo, da arte conceitual e da arte povera. Foram justamente os desafios gerados pela fusão dessas linguagens e formatos inéditos de exposição e recepção que dinamizaram e impulsionaram as atividades culturais do MAM Rio naquele momento. Segundo a crítica de arte e pesquisadora Fernanda Lopes (2013): “Não restringir o ‘experimental’ a uma única proposta artística, como o vídeo, a pintura, o ambiente, o desenho, ou qualquer outro suporte, trazia como desafio pensar o quanto de experimentação a pintura, o vídeo, o desenho, a escultura, a instalação, etc. podiam ter”.3
A Área exibiu cerca de 38 mostras individuais compostas por artistas de diferentes gerações até 1978.
[1] Frederico Morais, “No fazer criador todos se confundem”, em Frederico Morais e Jessica Gogan (orgs.), Domingos da criação: uma coleta poética do experimental em arte e educação, Rio de Janeiro: Instituto Mesa, 2017, p. 5.
[2] Anna Bella Geiger, Ivens Machado e Paulo Herkenhoff, “Sala experimental”, em Gloria Ferreira e Cecilia Cotrim (orgs.), Escritos de artistas: anos 60/70, Rio de Janeiro: Jorge Zahar, 2006, p. 380.
[3] Fernanda Lopes, Área Experimental – Lugar, espaço e dimensão do experimental na arte brasileira dos anos 1970, São Paulo: Prestígio Editorial, 2013, p. 49.