RETORNO À PINTURA

A repercussão da exposição Entre a mancha e a figura (1982) e a irrupção da Geração 80.

“Quase sempre a descoberta da cor é também a descoberta da pintura, do prazer de pintar, uma redescoberta, inclusive, do artesanato pictórico, do métier.” Esta reflexão é feita por Frederico Morais, curador da exposição Entre a mancha e a figura (1982) no MAM Rio, na qual apresenta um conjunto de práticas pictóricas que revelam a posição dos artistas diante desses dois polos que, em sua percepção, orientam o estado da arte naquele momento: a mancha e a figura.1

A mostra reuniu 17 artistas com obras consolidadas pela crítica e pelo mercado de arte. As pinturas de Flávio de Carvalho, Ernesto de Fiori e Ivan Serpa estabeleciam uma ponte entre as produções que assumiam uma expressão gestual e espontânea e aquelas que faziam uso da figuração. Nesse caminho encontram-se obras de Flávio Shiró e Iberê Camargo. Os demais artistas foram reunidos pela marca de uma geração nascida nos anos 1940, como José Cláudio, José Roberto Aguilar, Carlos Fajardo, Rubens Gerchman, Humberto Espíndola, Cláudio Kuperman, Luiz Aquila, Artur Barrio, Dudi Maia Rosa, Jorge Guinle, Ivald Granato e Charles Watson, o mais novo do grupo, nascido na década de 1950.

Em paralelo à apresentação da produção brasileira, foi incluída na exposição uma coletânea de slides com imagens de pinturas de artistas europeus e estadunidenses, como Henri Matisse, Wassily Kandinsky, Jackson Pollock, Willem de Kooning, Jean Dubuffet e Anselm Kiefer, a fim de criar aproximações estéticas e conceituais. Esta iniciativa também pode ser interpretada como uma ação estratégica que, na análise de Ivair Reinaldim, buscou apresentar uma atualidade artística e uma “equiparação da produção nacional com a internacional”.2

Para Frederico Morais, a união da sensibilidade do artista com a retomada da pintura como objeto da prática em si se apresentava como outra possibilidade frente às vertentes artísticas ligadas ao minimalismo e à arte conceitual praticadas nos anos 1960 e 1970. A retomada de uma autonomia estética e de uma individualidade foi notada nas telas e no comportamento de muitos artistas nos anos 1980, que desdobraram as pesquisas estéticas do informalismo e da nova figuração, assim como as tendências internacionais (como a transvanguarda na Itália e os artistas presentes na exposição A New Spirit in Painting, de 1981, na Inglaterra) vinham restituindo a centralidade da pintura na produção contemporânea.

Há naquele momento um entusiasmo pela vitalidade das pinturas em grande formato, sendo Entre a mancha e a figura precursora de outras propostas expositivas com foco na produção pictórica nos anos seguintes. Entre elas, destacam-se Pintura como meio, com curadoria de Sergio Romagnolo no Museu de Arte Contemporânea da Universidade de São Paulo (MAC USP), e Grandes formatos, com curadoria de Rubens Gerchman no Centro Empresarial Rio (RJ), ambas realizadas em 1983; a emblemática exposição Como vai você, Geração 80? (1984), organizada por Marcus Lontra na Escola de Artes Visuais do Parque Lage; e a 18ª Bienal de São Paulo, com o tema O homem e a vida (1985), sob curadoria de Sheila Leirner, na qual a disposição das obras nas paredes configurou “A grande tela”.3

O catálogo da mostra inclui depoimentos de artistas sobre suas relações com a pintura e suas trajetórias no meio da arte. Os depoimentos revelam uma diversidade de aproximações à prática pictórica, seja como continuidade de práticas anteriores, como relata Artur Barrio, seja como meio de expressão individual e coletiva, de acordo com Luiz Aquila. Gerchman produziu muitos textos teóricos, poéticos e autobiográficos com o intuito de discutir a pintura: “Pude perceber o que significava o surgimento e a discussão da nova pintura, uma situação inédita, liberta e emotiva, sobretudo para recolocar o problema da emoção. A partir daí, todo o meu empenho tem sido marcar posição na crença desta nova pintura/vida”.4 Jorge Guinle assume na prática da pintura a fusão de uma estética expressionista-abstrata e conceitual para uma construção visual que possa afetar o espectador. Para José Cláudio, “embora pintura seja ‘coisa mentale’, o cérebro está muito misturado com as tripas, as pernas, os sentidos, o coração”.5

Por ocasião da exposição, o MAM Rio organizou duas conferências temáticas: “Informalismo no Brasil”, com Fernando Cocchiarale, e “A figuração na arte brasileira”, com Fábio Magalhães. Também ocorreu a performance de José Roberto Aguillar, um dos integrantes da mostra, que realizou uma pintura em grande escala diante do público. Naquele mesmo ano, as exposições individuais de Carlos Zilio e Jorge Guinle deram continuidade aos debates em torno da prática da pintura, suas especificidades, problemas e questões acerca dos vínculos com a tradição e as fontes de referência da pintura moderna. Quatro anos após a exposição Entre a mancha e a figura, o museu realizou a conferência “Transvanguarda e culturas nacionais” com o crítico e curador italiano Achille Bonito Oliva, que organizou uma exposição “relâmpago” com artistas identificados com suas formulações teóricas. Participaram da mostra Antonio Dias, Cildo Meireles, Ivens Machado, Leda Catunda, Leonilson, Roberto Magalhães, Sérgio Romagnolo, Tunga e Victor Arruda.


[1] Frederico Morais, “Entre a mancha e a figura”, Museu de Arte Moderna do Rio de Janeiro, set. 1982. Catálogo de exposição.

[2] Ivair Reinaldim, Arte e crítica de arte na década de 1980: vínculos possíveis entre o debate teórico internacional e os discursos críticos no Brasil (tese), UFRJ, 2012, p. 56.

[3] Ivair Reinaldim, Arte e crítica de arte na década de 1980: vínculos possíveis entre o debate teórico internacional e os discursos críticos no Brasil (tese), UFRJ, 2012, p. 56.

[4] Frederico Morais, “Entre a mancha e a figura”, Museu de Arte Moderna do Rio de Janeiro, set. 1982. Catálogo de exposição.

[5] Frederico Morais, “Entre a mancha e a figura”, Museu de Arte Moderna do Rio de Janeiro, set. 1982. Catálogo de exposição.

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