Cerimônia e exposições de abertura do edifício de Affonso Eduardo Reidy e Carmen Portinho em 1958.
Na manhã de 9 de dezembro de 1954, o Presidente da República, João Café Filho, inaugurou oficialmente as obras de construção da sede definitiva do MAM Rio. O local escolhido foi uma ampla área à beira da Baía de Guanabara, cedida pela prefeitura do então Distrito Federal, entre o Aeroporto Santos Dumont e a Enseada da Glória. A cerimônia incluiu a cravação da “estaca fundamental” e a entrega de um martelo de prata ao presidente, um ato simbólico que celebrava a construção do museu sobre “solo novo, recém-conquistado ao mar”.1 A diretora executiva, Niomar Moniz Sodré, convidou as autoridades a selar uma cápsula do tempo, um pequeno cofre com jornais da época, moedas correntes e fotografias, e a depositá-la em uma caixa de concreto cimentada no mesmo terreno. A solenidade reuniu autoridades civis, militares e eclesiásticas, além de membros do corpo diplomático e diversos artistas, como Candido Portinari, Di Cavalcanti, Flávio de Carvalho, Roberto Burle Marx, Tomás Santa Rosa, Maria Martins, Margaret Spencer, Lygia Pape, Lygia Clark, Aluísio Carvão, Décio Vieira, Franz Weissmann, Zélia Salgado e Ivan Serpa.
No início daquele ano, a maquete e o plano arquitetônico de Affonso Eduardo Reidy para a sede permanente do museu foram apresentados junto à exposição do acervo na sede provisória, localizada no térreo do Palácio Gustavo Capanema, sede do Ministério da Educação e Saúde. A exibição do projeto tornava público o grande empreendimento, impulsionando as campanhas de arrecadação para garantir a continuidade das obras, que seriam coordenadas por Carmen Portinho, engenheira e diretora executiva adjunta do museu. Em retrospecto, Portinho afirmou: “A construção do MAM foi um dos capítulos mais fascinantes da nossa vida profissional e, ao mesmo tempo, uma aventura que a todos nós envolveu”.2
Enquanto as obras da sede permanente avançavam, o MAM Rio expandiu sua programação cultural com exposições nacionais e internacionais, mostras no exterior, cursos, conferências e exibições de filmes, além de manter o público atualizado sobre as novas aquisições de sua coleção. A consolidação do museu no cenário cultural carioca e nacional justificou a escolha do Bloco Escola como a primeira etapa construída da sede definitiva. O edifício foi projetado para concentrar as exposições, os cursos, a cantina, a reserva técnica e os ambientes administrativos, dispondo de pátio e espelho d’água no térreo, além de um jardim suspenso no terraço, com projeto paisagístico de Roberto Burle Marx.
O Presidente da República e conselheiro do MAM Rio, Juscelino Kubitschek, compareceu às solenidades de inauguração da sede permanente ocorridas em janeiro de 1958. Na ocasião, plantou a primeira muda de palmeira de uma série de 48 que compunham o projeto de Burle Marx. De acordo com os boletins da época, “o acontecimento era especialmente simbólico, pois as palmeiras […] eram netas daquelas trazidas por D. João VI para o Brasil havia cento e cinquenta anos”.3 O gesto do presidente foi reconhecido como um marco da “realização do Brasil como nacionalidade e como cultura”.4 A segunda comemoração homenageou artistas, arquitetos, críticos, escritores, poetas e jornalistas que apoiavam a instituição. A terceira e última etapa consistiu na cerimônia de inauguração oficial do museu, que contou novamente com a presença de Kubitschek, do ministro da Educação Clóvis Salgado, e de William Burden, presidente do MoMA, de Nova York. Também compareceram o embaixador britânico Geoffrey Harington Thompson e o embaixador Maurício Nabuco, presidente do MAM Rio, que abriu os discursos agradecendo, em especial, ao artista Ben Nicholson e aos escultores britânicos que integraram as celebrações com mostras de seus trabalhos.
Parte dos agradecimentos de Nabuco foi feita a Niomar Moniz Sodré, que se pronunciou em seguida, enfatizando aos artistas que passavam a ter uma “nova casa, mais ampla, confortável e melhor equipada para as suas múltiplas atividades”.5 Com a sede própria, a diretora executiva prometia a intensificação da programação, não apenas das exposições, mas também a ampliação dos cursos na Escola Técnica de Criação, destinada a preparar, em nível universitário, jovens para o design e as atividades da indústria. Embora o projeto não tenha avançado, ele deu as bases para a criação da primeira escola de desenho industrial do país, a Escola Superior de Design da Guanabara, em 1962, atual Escola Superior de Desenho Industrial (ESDI), vinculada à Universidade do Estado do Rio de Janeiro (UERJ).
As instalações previstas para as salas de aula, os ateliês, os laboratórios e a galeria de exposições da Escola foram mantidas, além do compromisso com a formação e a aproximação da arte à vida das pessoas. Em setembro de 1958, o Bloco Escola foi sede do seminário de estudos da Unesco sob o tema “Função dos Museus na Educação“. O discurso de abertura de Carlos Flexa Ribeiro, então diretor-geral do MAM Rio, foi marcado por um questionamento sobre a função social do museu: “Pode o projeto do Museu de Arte Moderna do Rio de Janeiro ser considerado como uma nova concepção dada à ideia tradicional de museu, seja no tempo, seja no espaço?”. Em seguida, ele complementou: “Em que medida o nosso projeto corresponde às exigências da vida nos meados do século 20, na América Latina, e atende às condições sociais particulares do nosso continente?”.6
Ribeiro aponta um alinhamento entre o programa do museu e as reformas da educação nacional, considerando a construção de um “museu ativo” capaz de superar os distanciamentos entre arte e vida. O MAM Rio se dedicaria ao “bem-estar, material e espiritual” da sociedade para, enfim, ultrapassar a tarefa entendida como mais desafiadora no plano cultural: “a recuperação da consciência da arte atual”. Para tanto, ele afirma que uma das missões do museu é colecionar obras de arte contemporâneas à sua época, valorizando a atividade criadora “com novos conhecimentos técnicos e novos modos de pensar”.7 De acordo com o plano arquitetônico de Reidy, o MAM Rio passaria a assumir “uma importante função educativa e um alto significado social […] rodeado pela mais bela paisagem do mundo”,8 apresentando à cena cultural da cidade as mais importantes vertentes da arte moderna e contemporânea do país por meio de seu programa de exposições e de formação artística e intelectual.
[1] “Inauguração da Pedra Fundamental do MAM”, Museu de Arte Moderna do Rio de Janeiro, Rio de Janeiro, Boletim, 1954.
[2] Nabil Georges Bonduki, Affonso Eduardo Reidy, São Paulo, Instituto Lina Bo e Pietro Maria Bardi, Lisboa, Editora Blau, 1999, p. 9.
[3] A “palma-mater” plantada por dom João VI encontrava-se no Jardim Botânico até 1972, quando foi atingida por uma “faísca elétrica”. (Manuel Pio Correa, Dicionário de plantas úteis do Brasil e das exóticas cultivadas, Rio de Janeiro, Minagri, 1931.)
[4] “O Museu em casa própria”, Museu de Arte Moderna do Rio de Janeiro, Rio de Janeiro, Boletim, 1958.
[5] “O Museu em casa própria”, Museu de Arte Moderna do Rio de Janeiro, Rio de Janeiro, Boletim, 1958.
[6] Carlos Flexa Ribeiro, “As razões de ser do Museu”, O Museu de Arte Moderna do Rio de Janeiro, Lisboa, Escritório de Propaganda e Expansão Comercial do Brasil, set. 1958.
[7] Idem.
[8] Affonso Eduardo Reidy, “O plano arquitetônico do Museu de Arte Moderna do Rio de Janeiro”, Museu de Arte Moderna do Rio de Janeiro, Rio de Janeiro, Boletim, 1959.