VANGUARDAS CONSTRUTIVAS

A presença da arte concreta e neoconcreta no MAM Rio.

Em 1977, o MAM Rio sediou a exposição Projeto construtivo brasileiro na arte (1950–1962). A mostra partiu de uma iniciativa conjunta entre Ronaldo Brito, membro da comissão de planejamento cultural do museu,1 e Aracy Amaral, então diretora da Pinacoteca do Estado de São Paulo. Brito já havia publicado seu influente ensaio sobre o neoconcretismo na revista Malasartes em 1976, enquanto Amaral promovia um programa de intercâmbio entre instituições na América Latina.

A mostra no Rio de Janeiro e em São Paulo ficou sob a curadoria de Lygia Pape e Ronaldo do Rego Macedo. Aracy Amaral encarregou-se de elaborar uma antologia de textos históricos e análises críticas acerca da vocação construtiva da arte nacional. A retrospectiva contou com cerca de 150 trabalhos, reunindo pinturas, esculturas, desenhos, peças de design, objetos, poemas e partituras. A seleção abrangeu pesquisas anteriores aos grupos concreto e neoconcreto, obras desses próprios movimentos e produções de artistas que desenvolveram uma linguagem construtiva no mesmo período. Participaram da exposição integrantes do Grupo Frente (RJ) e do Grupo Ruptura (SP), além de Dionísio Del Santo e Ubi Bava, com trabalhos na direção abstrato-geométrica, e artistas que produziram cruzamentos conceituais com o debate concretista, como Alfredo Volpi, Milton Dacosta, Maria Leontina e Rubem Valentim.

O marco temporal da mostra compreendeu o período de 1950 – quando Max Bill foi convidado por Pietro Maria Bardi para expor no MASP, recebendo, no ano seguinte, o prêmio internacional da I Bienal de São Paulo – até o início dos anos 1960, momento em que se observou um deslocamento do pensamento construtivo no ambiente cultural brasileiro. O contato de Max Bill com o meio artístico local também foi destaque nas exposições sediadas pelo MAM Rio no período de abrangência da retrospectiva. Em 1952, a obra Unidade tripartida (1948–1949) esteve em exibição no museu, por ocasião da itinerância dos artistas premiados da Bienal. No ano seguinte, o artista, designer e arquiteto visitou o Brasil e realizou uma série de conferências sobre a arte concreta, a Bauhaus e a Escola de Ulm no salão de exposições do museu, na época localizado no térreo do Ministério da Educação. Ainda que essa passagem tenha sido cercada de polêmicas2 e suas ideias tenham dividido opiniões, o interesse por sua obra e abordagem condizia com as aspirações da direção do MAM Rio para a sua futura sede permanente: que a arte fosse compreendida como atividade cultural aliada à formação do artista e à sua aplicação concreta na vida social.

Ainda em 1953, o MAM Rio recebeu a mostra histórica Grupo de artistas argentinos modernos, importante vanguarda formada por José Antonio Fernández-Muro, Claudio Girola, Sarah Grilo, Alfredo Hlito, Enio Iommi, Tomás Maldonado, Miguel Ocampo e Lidy Prati, contando também com a participação de Rafael Onetto e Clorindo Testa. A apresentação foi assinada pelo crítico de arte Jorge Romero Brest, que analisou as vertentes concretas e abstratas do grupo. Brest considerou que as vanguardas europeias fauvista, expressionista, cubista e futurista favoreceram “o caminho que conduz ao descobrimento de uma nova objetividade, a única que não responde à realidade circunstanciada do homem sensível e sentimental que se concebe como indivíduo, a única que implica a superação da contingência: a geometria”.3 Miguel Ocampo retornou ao museu com uma individual em 1959, simultaneamente à mostra de cartazes e fotografias do designer gráfico alemão Otl Aicher, que também ministrou um curso prático de comunicação visual.

Segundo Frederico Morais, essa exposição do grupo argentino provocou grande impacto nos artistas que desenvolviam pesquisas de matiz abstrato-geométrico, o que impulsionou a formação do Grupo Frente no Rio de Janeiro. Em depoimento a Morais, Décio Vieira relatou a profunda influência de Maldonado, como artista e intelectual, sobre sua geração.4 A convite do MAM Rio, o artista, designer e teórico argentino colaborou com a concepção do projeto da Escola Técnica de Criação – que não chegou a ser implementado – e com o planejamento da área que abrigaria as atividades pedagógicas na sede permanente.5 Posteriormente, ele ministrou dois cursos no museu, um de Iniciação visual (1956) e outro de Elementos da comunicação visual (1959), além da conferência sobre a Escola de Ulm (1959), realizada concomitantemente à mostra Escola Superior de Desenho de Ulm. A presença de Maldonado e a mostra de Ulm representavam, naquele momento, uma tomada de posição frente aos governos autoritários e a afirmação do papel fundamentalmente didático e social de um museu moderno.

Alinhada a esse debate sobre a função social da arte, a perspectiva de Mário Pedrosa corrobora o espírito que integrava o Grupo Frente. Na apresentação dessa nova geração de artistas, o crítico destacou: “A indústria moderna precisa da imprescindível e inadiável colaboração dos artistas, sob pena de jamais elevar-se à altura das exigências culturais da sociedade a que serve”.6 O grupo era formado por ex-alunos dos cursos de pintura para adultos ministrados por Ivan Serpa no MAM Rio. O coletivo reuniu nomes como Aluísio Carvão, Eric Baruch, Abraham Palatnik, Décio Vieira, Lygia Pape, Lygia Clark, Vincent Ibberson, João José da Silva Costa, Carlos Val, Rubem Ludolf, César e Hélio Oiticica, Elisa Martins da Silveira e Franz Weissmann. Embora as produções fossem heterogêneas, destacava-se um interesse comum pela arte concreta. Para Serpa, o mais importante dessa experiência residia em romper com as convenções acadêmicas para trilhar caminhos de maior liberdade de criação.7 

Das quatro exposições realizadas pelo Grupo Frente, duas foram promovidas pelo MAM Rio: Grupo Frente: segunda mostra coletiva (1955) e a Quarta exposição do Grupo Frente (1956), esta última patrocinada pelo museu e pela Companhia Siderúrgica Nacional e sediada em Volta Redonda. Pedrosa saudou a iniciativa do MAM Rio ao abrigar a segunda mostra, pois “cumpre a sua missão de estimular os valores novos”. Para o crítico, “a experiência desse contato só pode ser fecunda, mesmo que a reação do público não seja de pronto favorável. […] Algo nos diz, entretanto, que esta exposição vingará; que será um marco no processo de conquista da opinião culta pela arte atual, pela arte verdadeiramente viva de nosso tempo”.8

As expectativas de Pedrosa se confirmaram poucos anos depois, quando o próprio museu acolheu, em 1959, a 1ª exposição neoconcreta, mostra em que artistas como Amilcar de Castro, Lygia Clark, Lygia Pape, Ferreira Gullar, Franz Weissmann, Reynaldo Jardim e Theon Spanudis se dedicaram às possibilidades expressivas apontadas pelas pesquisas concretas. O manifesto neoconcreto, redigido por Gullar, que também lançara a Teoria do não-objeto, foi publicado simultaneamente no Jornal do Brasil e no catálogo da mostra, propondo uma revisão teórica ao afirmar que a obra de arte transcende a tradição construtivista para revelar um “universo de significações existenciais que ela a um tempo funde e revela”.9 A exposição trouxe uma fusão de linguagens materializada no Balé neoconcreto I (1958), de Pape e Jardim, que integrou escultura, poesia e dança. As obras neoconcretas levaram Gullar a afirmar que tais propostas inauguravam novos problemas formais e, fundamentalmente, a “linguagem de uma nova sensibilidade”.10

No ano seguinte, em 1960, o MAM Rio abrigou a Exposição de arte concreta, com obras de Waldemar Cordeiro, Kazmer Féjer, Judith Lauand, Maurício Nogueira Lima e Luiz Sacilotto, o que reafirmou o compromisso da instituição com as tendências construtivas no Brasil. Essas manifestações ocuparam o recém-inaugurado Bloco Escola, ambiente que materializava, por meio desse ciclo de exposições históricas, a indissociável união entre a vocação pedagógica e a vanguarda artística que impulsionariam a missão do museu na década seguinte.


[1] Entre 1974 e 1981, a Comissão de Planejamento Cultural do MAM Rio era formada pelos críticos de arte Olívio Tavares Araújo, Roberto Pontual e Ronaldo Brito, pelos artistas Sérgio Camargo e Carlos Vergara, e por José Carlos Avellar, da Cinemateca, Karl Heinz Bergmiller, do Instituto de Desenho Industrial (IDI), e Sidney Miller, do departamento Corpo/Som.                   

[2] “Max Bill esclarece pontos de vista e desfaz mal-entendidos”, Rio de Janeiro, Correio da Manhã, 7 jun. 1953.

[3] Jorge Romero Brest, Grupo de Artistas Argentinos Modernos, Museu de Arte Moderna do Rio de Janeiro, Rio de Janeiro, ago. 1953. Catálogo de exposição.

[4] Frederico Morais, Cronologia das Artes Plásticas no Rio de Janeiro, Rio de Janeiro: TopBooks, 1995, p. 224.

[5] Elizabeth Catoia Varela, Arte concreta e neoconcreta nos anos iniciais do MAM, Rio de Janeiro: Museu de Arte Moderna do Rio de Janeiro, 2017.

[6] Mário Pedrosa, Apresentação, Grupo Frente: segunda mostra coletiva, Museu de Arte Moderna do Rio de Janeiro, Rio de Janeiro, 1955. Catálogo de exposição.

[7] Ivan Serpa, Retrospectiva: 1947-1973, Rio de Janeiro: Centro Cultural Banco do Brasil, 1993.

[8] Mário Pedrosa, Apresentação, Grupo Frente: segunda mostra coletiva, Museu de Arte Moderna do Rio de Janeiro, Rio de Janeiro, 1955. Catálogo de exposição.

[9] Manifesto Neoconcreto, 1ª Exposição Neoconcreta, Museu de Arte Moderna do Rio de Janeiro, mar. 1959.

[10] Ferreira Gullar, “Cor e Estrutura-Cor, Etapas da Pintura Contemporânea, Arte Neoconcreta, Rio de Janeiro, Jornal do Brasil, 29 out. 1960.

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