por Christian Flemm

Um estudo de coreografia para câmera (A Study in Choreography for Camera), de Maya Deren (EUA, 1945)
Intimidade do material
Desde 2023, eu apresento e faço a programação do “Screening Salons in Berlin”, um evento mensal, com programas de filmes em 16mm de minha coleção, mas também convidando artistas a exibirem seus trabalhos num espaço doméstico. Por meio dessas exibições, que buscam subverter o arco de proscênio do típico ambiente de exibição, um novo underground emerge, fundado em questões de privacidade, amizade e intimidade do material.
O que tratamos de intimidade foi há muito tempo mal entendido. Antes da proximidade, é preciso primeiro tomar distância. Penso que o material do 16mm – ou, poderíamos dizer, a sua imagem cinematográfica, que é fotoquimicamente finalizado e apresentado a um público de somente algumas pessoas –, tem um status único para sondar a questão da intimidade. Quando mostramos algo que fizemos a um grupo de pessoas que está apenas a alguns graus de distância separado de sua realização, temos algo belo acontecendo. A distância se esvai de modos diferentes.
No cinema, a possibilidade de intimidade é baseada na premissa da barreira construída pela presença da câmera, sua proximidade do objeto ou pessoa filmada, e a relação tênue da pessoa filmada com o público espectador. Por meio das imagens em movimento, o público torna-se o recipiente de uma intimidade que existe sem familiaridade; e hoje, mais do que jamais anteriormente, a intimidade vem sob o custo da privacidade.
Imaginar a tela como um fenômeno que pode aparecer em qualquer parede dentro de uma casa é um truque de mágica. E, para mim, a tela é um portal para uma nova região do mundo. Quando o escritor Máximo Górki viu filmes pela primeira vez, ele disse que se sentiu como se fosse tragado para o Reino das Sombras. A tela também pode ser um espelho, mas sabemos desde o Orfeu de Jean Cocteau que um espelho é um portal para algum outro local. Esse outro local não é um lugar que devemos entender. Tudo que ele pede é que acreditemos nele.
Quando monto as instalações em que fazemos as exibições, penso em como as pessoas poderão estar confortáveis, para que possam se engajar de forma tão livre e crítica possível com aquilo que está acontecendo na tela. O que acontece na tela se projeta de volta para os espectadores, e é aí que revolução pode acontecer. Nesse momento, os corações e as mentes podem se modificar, e pessoas estranhas podem se unir. Naturalmente, isso também significa que uma conversa acontece. A conversa, de alguma forma, é um tabu no que diz respeito ao cinema. Mas falar é uma coisa bela, porque falar é uma trilha sonora, e nós geralmente exibimos filmes silenciosos.
Intimidade do material é a compressão da expressão cinematográfica ao espaço de uma sala familiar e pequena ocupada por amigos, colegas viajantes, em que o projetor e a tela se abrem para uma nova região do mundo chamada fazer-cinema pessoal. Dito de outra forma, é a capacidade do projetor de cinema de transformar a luz recebida em luz compartilhada.
Ao longo de três sessões, cada uma delas originalmente exibida num Screening Salon anteriormente em Berlim, busco articular as preocupações de curadoria de minha prática artística dentro do contexto da Cinemateca sem reencenar o espaço doméstico das exibições do Salon.
Terça-feira, 16 de junho de 2026, 18h30

II (Above), de Grace Baggott (Reino Unido, 2023)
Salon nº 25 – Me & You – Bethaniendamm 19
A sessão reúne uma série de filmes em 16mm que abordam os filmes-retrato não como um gênero estável, mas como um conjunto de condições – ópticas, materiais e sociais – pelas quais uma série de preocupações materiais dão-se a ver. Nos últimos quatro anos, o filme-retrato tornou-se um tema central em meu trabalho, menos como um tema do que como uma questão relacional: como uma presença é mantida no intervalo do quadro, e como essa manutenção tanto revela quanto retém.
Os filmes apresentados tratam dos limites que definem o retrato cinematográfico, permanecendo dentro de sua tensão e explorando suas contradições sem tentar resolvê-las. Nesses trabalhos, a relação entre modelo e cineasta não é nem fixada nem simétrica; o retrato torna-se um evento mais do que um objeto, moldado por atos recíprocos de olhar e ser olhado, enquadrar e reenquadrar.
Seja deparada na delimitação da câmera, seja como um limite sugerido pelo ato da projeção, o quadro opera como um limiar da superfície de projeção e também como a interrupção que cria a ilusão do movimento quando guiada pelo mecanismo intermitente do projetor cinematográfico. Ela marca um espaço de encontro, e simultaneamente institui uma distância incapaz de ser superada, em que aquilo que aparece na tela é sempre acompanhado pelo que permanece fora, ou é retido.
Enquadrar, portanto, não é um ato neutro. É uma intervenção: material, temporal e social. Se a fixação de um enquadramento estabelece uma barreira, esses filmes questionam o que significa instalar essa barreira em meio à continuidade vivida da existência do outro. Que formas de responsabilidade emergem quando uma vida é coletada, mesmo que parcialmente, e transformada em imagem? E como pode o filme-retrato, em sua escala modesta, registrar as assimetrias que ele inevitavelmente produz?
Mais do que resolver essas questões, a sessão propõe filmes-retrato como um espaço em que as relações são tornadas visíveis: entre cineasta e modelo, aparato e corpo, imagem e mundo. Ao fazê-lo, ela convida a um modo de ver que está atento não apenas ao que é exibido, mas às condições – e consequências – do aparecimento.
Esta sessão foi originalmente exibida no contexto de um Screening Salon na Rua Bethaniendamm 19, Berlim, Alemanha, em 30 de maio de 2026.
Terça-feira, 18 de junho de 2026, 18h30

Adebar, de Peter Kubelka (Áustria, 1957)
Salon nº 16 – Toda revolução é uma virada de pé – Selchowerstrasse 33
Esta sessão taça a relação entre corpos em movimento as as zonas que eles atravessam, seguindo caminhos que se desdobram não apenas pelo espaço mas pelo próprio ato de projeção. Aproveitando a deixa da observação de Maya Deren de que o cinema pode criar uma geografia de movimento para além dos limites da continuidade ordinária e sem mediação, em filmes como Tramas do entardecer e Adebar, o peso de um passo carrega figuras por limiares que são tanto reais quanto imaginados, e a revolução de um pé acha sua contrapartida na revolução motora da câmera, e cada movimento leva outro campo de relações entrar em jogo.
Esses trabalhos entendem a dança como uma força gerativa, com filmes formalmente rigorosos como Fishs Eddy e Stare subvertendo expectativas normativas sobre o que constitui a dança filmada. Capazes de colapsar distâncias e resolver abstrações temporais e representacionais, eles transformam o aparato cinematográfico em um dançarino independente, e a relação entre cineasta e personagem filmado é mantida em tensão igual por meio do milagre da luz projetada.
Esta sessão foi originalmente apresentada no contexto de um Screening Salon na Rua Selchowerstrasse 33, Berlim, Alemanha, em 6 de abril de 2024.
Terça-feira, 18 de junho de 2026, 19h50

Saint Flournoy…, de Will Hindle (EUA, 1970)
Salon nº 19 – Will Hindle – Reichenbergerstrasse 107
Entre 1958 e sua morte em 1987, Will Hindle criou dez filmes em 16mm que são desafiadoramente pessoais e formalmente rigorosos, e desafiam os limites da forma cinematográfica e acenam para o que o escritor Gene Youngblood, pegando emprestado de Freud, chamou de “consciência oceânica” em seu texto definitivo Cinema expandido:
“O efeito oceânico do cinema de sinestesia é similar à sedução mística dos elementos naturais: contemplamos o oceano, o lago ou o rio em maravilhamento irracional. Somos atraídos quase hipnoticamente pelo fogo, observando como se enfeitiçados. Vemos catedrais nas nuvens, sem pensar em nada particular mas sentindo de alguma forma segurança e contentamento.” (YOUNGBLOOD, 1970, p. 92)
Figura fundamental do movimento do Novo Cinema Americano, Hindle faz uso de aparelhos artesanais para revelação fílmica e projeção de fundo – desenvolvidos primeiro em seu studio em São Francisco, Califórnia, e depois em seu imponente estúdio-moradia, construído por ele mesmo, na floresta do Alabama do Norte. Suas invenções permitiram que ele criasse uma gramática cinematográfica profundamente original que é simultaneamente refinada e opaca, íntima e transcendente.
A obra marcante de Hindle, que será vista em três filmes nesta sessão, convida os espectadores para fazer a experiência do cinema não como narrativa, mas como uma jornada pessoal e sensorial.
“Will Hindle foi um proponente apaixonado do filme ‘pessoal’. O termo ‘pessoal’ queria dizer que o artista era inteiramente responsável pela feitura do filme: responsável pelo tema, pela direção e pela escolha da imagem, pelo trabalho de câmera e pela montagem. Seus filmes seriam sobre sua vida e suas percepções, ele queria expressar aquilo que ele mais sabia, com aquilo que ele mais se importava. Alternadamente assombrado e exaltado, seu trabalho é verdadeiramente marcado pela genialidade.” (Will Hindle and the Personal Film, Lyman, 2007)
Esta sessão, retomada de uma sessão originalmente exibida no contexto de um Screening Salon na Rua Reichenbergerstrasse 107, Berlim, Alemanha, em 14 de setembro de 2025, é a primeira sessão dedicada aos filmes 16mm de Hindle no Brasil.
(tradução: Ruy Gardnier)
Este artigo diz respeito à mostra Cinema experimental em 16mm, que faz parte da programação que a Cinemateca do MAM promove em junho de 2026.