Os bandeirantes, de James Cruze

por Henrique Quadros

Os bandeirantes (The Covered Wagon, 1923).

Cinema em expansão: o western épico e as novas fronteiras de Hollywood

Nada mais estadunidense que o faroeste. Dentro do escopo cinematográfico o western não apenas acompanhou o desenvolvimento da indústria de cinema nos EUA como foi, por muito tempo, comumente associado aos seus grandes momentos de virada. O motivo é que o western – como uma série de códigos narrativos é quase que inseparável do próprio entendimento mitológico dos EUA como uma nação. Principalmente nas décadas anteriores aos anos 1950 e 1960, o western era uma maneira ideal de argumentar a favor dos valores nacionais americanos. Mas a forma e estilo com o qual realizadores faziam westerns nem sempre foi a mesma.

Quando os filmes de ficção começaram a ganhar popularidade nos EUA na virada do século, o filme de faroeste já se fez presente. O grande roubo do trem (1903) é um dos exemplos mais antigos, tratando-se de um curta sobre o assalto e conflito armado entre bandidos e policiais. O western continuou presente com a popularização dos filmes de suspense de dois rolos, os two-reelers, inclusive com produções do próprio mestre dessa prática, D.W. Griffith. Um exemplo notável é The Battle at Elderbush Gulch (1913), que já continha o clássico (e problemático) conflito entre os povos originários e os caubóis brancos. Com os seriados cliffhangers do começo da década de 1910, o gênero cresceu de forma exponencial. As primeiras estrelas de faroeste começaram a surgir, figuras como Tom Mix, Texas Guinan, William S. Hart, Harry Carey etc. dominaram as telas com suas perseguições implacáveis, acrobacias arriscadas, e tiroteios extravagantes. O western era, naquele momento, um tipo certeiro de entretenimento, mas logo entraria em crise.

A década de 1910 viu uma revolução no cinema como indústria e como forma de arte. O longa-metragem foi se popularizando, os grandes estúdios foram se formando, as cadeias de produção, distribuição, e exibição foram se sofisticando, e com isso o cinema começou a se transformar em algo bem maior do que o entretenimento rápido e barato que ele era. A princípio, a Europa estava na vanguarda dessas inovações. Diretores italianos como Giovanni Pastrone e Francesco Bertolini experimentaram com a produção de longas-metragens épicos de larga escala (peplums) como Inferno (1911) e Cabiria (1914). Essas fitas buscavam adaptar a qualidade épica dos textos clássicos utilizando sets imensos, equipamentos de ponta de linha, multidões de figurantes, além de técnicas de edição e fotografia que permitiam trazer para a tela as fantasias dos poemas. Esses filmes dominaram as salas de cinema do mundo, e nos EUA, o exemplo dos italianos foi sendo seguido até o longa-metragem épico se estabelecer como o maior tipo de espetáculo cinematográfico.

Depois de O nascimento de uma nação (1915) considerado o primeiro épico longa-metragem produzido nos EUA –, D.W. Griffith lançou Intolerância (1916), que foi abertamente inspirado nos peplums da época. A partir daí ele continuou com Aos corações do mundo (1918), Horizonte sombrio (1920), e Órfãs da tempestade (1921), entre outros. Além de Griffith. Thomas Ince dirigiu Civilização (1916), Rex Ingram dirigiu Os quatro cavaleiros do apocalipse (1921), e Cecil B. DeMille fez Os dez mandamentos de 1923. Com a queda vertiginosa que o cinema Europeu sofreu graças à crise da Primeira Guerra Mundial, essas produções acabaram sendo decisivas para a consolidação do cinema estadunidense no mercado internacional. Era o momento de expansão de Hollywood. Mas como o Western se encaixaria nisso?

No final da década de 1910, o gênero de faroeste estava em uma crise existencial: o que começou a década como um dos principais gêneros nacionais passou a se ver irrelevante frente às grandes e luxuosas produções que traziam multidões para as salas de cinema. Para contrapor-se a isso, o produtor Jesse L. Lasky designou uma missão ao diretor James Cruze: fazer o primeiro épico do faroeste. Foi assim que The Covered Wagon (ou Os bandeirantes, no Brasil) foi concebido.

The Covered Wagon conta a história de um grupo de famílias que percorrem o interior dos Estados Unidos com a intenção de chegar até o Oregon, onde poderiam adquirir suas próprias terras. Entretanto, para chegar até lá, elas precisam atravessar todos os tipos de obstáculos (naturais e humanos) imagináveis. A trama tem claros paralelos com a famosa história de Moisés e os Israelitas, que percorreram o deserto até a terra prometida de Canaã. A semelhança é intencional: The Covered Wagon é, acima de tudo, uma história de como o povo americano conseguiu superar todas as desavenças para estabelecer as bases do que se tornaria “uma grande civilização”. Não é à toa que o presidente americano da época, Warren G. Harding, considerava esse o seu filme favorito.

James Cruze optou por uma autenticidade bastante ortodoxa na produção, utilizando os próprios vagões da trilha do Oregon original, contratando os próprios membros das tribos indígenas para fazerem o papel dos nativos, chegando até a exigir que os vagões atravessassem um rio de verdade, o que resultou na morte de dois cavalos. Querendo ou não, isso elevou muito o padrão do tipo de western que seria feito dali pra frente.

Os próprios personagens, arcos dramáticos, e sequências de ação seriam apropriados e incluídos permanentemente aos códigos narrativos do gênero. E o legado de The Covered Wagon é extenso. Um ano depois, um jovem John Ford dirigiu O cavalo de ferro (1924), outro western épico sobre a construção da linha ferroviária transcontinental americana. Em 1926, Henry King dirigiu Beijo ardente, um western épico com elementos de romance; em 1929 Allan Dwan dirigiu Ouro redentor, que é sobre a corrida do ouro para a Califórnia; em 1930 Raoul Walsh realizou o ambicioso A grande jornada, também sobre a trilha do Oregon, que foi filmado no suporte experimental de 70mm widescreen, e que foi um dos primeiros papéis de John Wayne; Wesley Ruggles lançou, em 1931, o épico Cimarron, o primeiro western a receber um Oscar de melhor filme. E, é claro, em 1939 John Ford retornou aos filmes de faroeste com o seu seminal No tempo das diligências, que dispensa explicações.

Este artigo diz respeito à rubrica Aconteceu 100 anos atrás, e Os bandeirantes de James Cruze faz parte da programação que a Cinemateca do MAM promove em setembro de 2023.






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