texto curatorial
O CANECO É NOSSO!, obra criada pelo artista e curador Froiid para o MAM Rio, reúne mil réplicas da Taça Jules Rimet, troféu desenhado pelo escultor Abel Lafleur em 1930 e entregue temporariamente às equipes ganhadoras da Copa do Mundo.
A taça circulou entre diversos países até ficar definitivamente no Brasil após o tricampeonato de 1970, onde ganhou sentidos que ultrapassaram o campo esportivo: o troféu operou como dispositivo de propaganda da ditadura militar, que ancorava no êxito da seleção uma imagem de progresso econômico e social. Seu percurso encontra um ponto de inflexão justamente em 1983, no período da abertura política, quando é roubado da sede da CBF no Rio de Janeiro e desaparece definitivamente. Com esta instalação, o artista traz a história para o presente, reunindo uma multidão de taças em que se subtrai uma. Desse modo, atualiza tensões e disputas em torno do seu significado, mostrando as apropriações populares do símbolo.
Com O CANECO É NOSSO!, Froiid desloca a taça e sua história de seu campo de origem em uma operação estética e crítica. As referências do artista atravessam as vanguardas situacionistas, movimento que aproxima arte, jogo e experiência cotidiana, misturando-as com suas vivências pessoais e com as formas de sociabilidade urbana: o churrasco na laje, o futebol de várzea ou a sinuca, entre outros. Com isso, opera um drible no cânone da arte brasileira e reinscreve a cultura popular sob outra chave simbólica.
Em suas obras, Froiid produz uma espécie de “metaverso” artístico, um campo simbólico no qual memória, ficção, experiência pessoal e repertórios coletivos coexistem e se reorganizam continuamente. Seu trabalho combina um conhecimento profundo da história da arte com experiências enraizadas na vida cotidiana e na sociabilidade urbana, sobretudo negra e masculina, evidenciando uma compreensão da cultura brasileira como um sistema contínuo de criação coletiva.
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