ABERTURA 19 SET curadoria Raquel Barreto, Pablo Lafuente e Phelipe Rezende com colaboração de Debora Moraes e Edu Gonçalves
Carnaval como método investiga os processos criativos que estruturam os desfiles das escolas de samba, trazendo para o espaço expositivo do MAM Rio estratégias próprias do trabalho dos artistas na concepção e realização do Carnaval.
A mostra é construída a partir do comissionamento de obras inéditas a seis carnavalescos em atividade, convidados a conceber projetos específicos para o Salão Monumental do museu. A eles, soma-se a apresentação de trabalhos históricos que Maria Augusta, Rosa Magalhães e Joãosinho Trinta realizaram para a avenida. Completando o projeto, uma seleção de pinturas de autoria de compositores, sambistas e outros artistas do carnaval e do universo do samba mostra que os processos de criação são múltiplos e cruzam formatos e disciplinas.
As obras transformam o espaço expositivo em um campo de experimentação inspirado nas dinâmicas criativas do Carnaval, ao mesmo tempo que invertem a lógica do desfile: enquanto na avenida a escola percorre o espaço diante dos públicos, no museu, os públicos se movimentam na exposição, construindo sua experiência no deslocamento entre obras e instalações.
Em vez de transpor o desfile para o museu, os artistas adaptam sua linguagem e metodologia para o contexto expositivo, preservando as dinâmicas coletivas caraterísticas da festa. Assim afirmam o carnaval enquanto prática artística e ampliam os modos de pesquisa e reflexão sobre os processos que lhe dão forma.
Carnaval como método retoma relações históricas que o MAM Rio estabeleceu com o carnaval e as escolas de samba, mas dessa vez reconhecendo explicitamente sua centralidade. E assim propõe um questionamento de distinções, categorias e hierarquias historicamente estabelecidas pelos museus e pelos discursos dominantes da história da arte, contribuindo para o reconhecimento dos carnavalescos como protagonistas da produção artística no Brasil.
artistas na exposição
Artistas comissionados André Rodrigues com Juliana Joannou Annik Salmon Antônio Gonzaga Gabriel Haddad e Leonardo Bora Thayssa Menezes
Artistas históricos Maria Augusta Rodrigues Rosa Magalhães Joãosinho Trinta, com obras de Valtemir Valle e Claudio Urbano Medeiros
Artistas pintores Antônio Caetano Gisa Nogueira Heitor dos Prazeres João da Baiana Mestre Saul Miguel Moura Monsueto Menezes Nelson Sargento Raquel Trindade
André Rodrigues é artista visual, carnavalesco e diretor criativo. Sua pesquisa articula ancestralidade, imagem e narrativa, construindo uma linguagem simbólica e contemporânea para o Carnaval e para projetos culturais. Atualmente, é diretor criativo da LIESA. Juliana Joannou é historiadora da arte, formada pela Escola de Belas Artes da UFRJ. Sua pesquisa se volta à história das escolas de samba do Rio de Janeiro, aos seus processos de criação e aos enredos como formas de construção historiográfica.
Carioca, Annik Salmon é formada em Belas Artes pela UFRJ e pós-graduada pela UCAM. Iniciou sua trajetória no Carnaval em 2003 e, desde então, trabalhou em escolas como Vila Isabel, Beija-Flor e Unidos da Tijuca. Sua pesquisa desenvolve enredos ligados à cultura afro-brasileira e ao protagonismo feminino. Atualmente, é carnavalesca da São Clemente.
Artista plástico e compositor, Antônio Gonzaga é formado em Design pela PUC-Rio. Iniciou sua trajetória no Carnaval em 2019, criando as identidades visuais dos enredos da Cubango. Participou da equipe de criação dos desfiles da Grande Rio em 2020 e 2022, foi carnavalesco da Portela e, atualmente, é carnavalesco da Grande Rio.
Parceiros de longa data no Carnaval, Gabriel Haddad e Leonardo Bora assinaram trabalhos na Cubango e na Grande Rio e conquistaram, em 2022, o primeiro campeonato da história da escola de Duque de Caxias. Desde 2026, são carnavalescos da Unidos de Vila Isabel. Haddad, nascido no Rio de Janeiro, é mestre em Artes e doutorando em História da Arte pela UERJ. Bora, nascido em Irati, no Paraná, é doutor em Letras e professor da UFRJ, onde desenvolveu pesquisa sobre a obra de Rosa Magalhães. Suas trajetórias também revelam diferentes escalas de atuação nas escolas de samba cariocas, não se restringindo ao Grupo Especial e reunindo experiências na Sapucaí, na Série Ouro e nos desfiles da Intendente Magalhães.
Partindo de figuras e referências ligadas às raízes das escolas de samba, Thayssa Menezes é pesquisadora, carnavalesca e arte-educadora, nascida em Niterói. Investiga as relações entre memória, matrizes afro-brasileiras, pensamento negro e escolas de samba, compreendendo o Carnaval como linguagem estética, política e patrimônio intelectual negro. É idealizadora do projeto Mulheres Negras no Carnaval e foi curadora da exposição As raízes negras do Carnaval, realizada pelo SESC no Sambódromo, em 2024. Atualmente, é enredista da Unidos da Tijuca e da Mocidade Unida da Mooca e já foi carnavalesca da Cubango.
(Rio de Janeiro, RJ, Brasil, 1951–2021) Pintor, desenhista e figurinista, trabalhou em parceria com Joãosinho Trinta e realizou os desenhos técnicos de alegorias e fantasias idealizadas pelo carnavalesco.
(São Luís, MA, 1933–2011) Joãosinho Trinta foi artista plástico e um dos carnavalescos de maior destaque do Rio de Janeiro. Iniciou sua trajetória no Carnaval em 1965, como assistente de Fernando Pamplona no Acadêmicos do Salgueiro, e conquistou oito campeonatos ao longo da carreira, pelo Salgueiro, pela Beija-Flor de Nilópolis e pela Viradouro. Transformou a estética dos desfiles ao ampliar o uso de grandes carros alegóricos e explorar o brilho, o movimento e o impacto visual. Também incorporou materiais reciclados à criação de fantasias e alegorias e desenvolveu iniciativas comunitárias, como o projeto Mutirão, em Nilópolis.
(Rio de Janeiro, RJ, Brasil, 1942–2025) Maria Augusta Rodrigues foi carnavalesca, artista visual, pesquisadora e professora de artes. Aproximou-se do Carnaval em 1969, a convite de Fernando Pamplona, seu professor na Escola Nacional de Belas Artes, e naquele ano elaborou seu primeiro projeto para a Império da Tijuca. Professora de teoria da cor na Escola de Belas Artes da UFRJ, contribuiu para ampliar o uso das cores nos desfiles e levou elementos do cotidiano para a avenida. Entre seus trabalhos mais marcantes estavam Bahia de Todos os Deuses (1969), Festa para um rei negro (1971), Domingo (1977) e O Amanhã (1978), este último desenvolvido na União da Ilha do Governador, onde seu estilo se afirmou de forma mais explícita.
(Rio de Janeiro, RJ, Brasil, 1947–2024) Rosa Magalhães foi carnavalesca, cenógrafa, figurinista, artista visual e professora. Formada em pintura e cenografia, iniciou sua relação com o Carnaval em 1971, quando Fernando Pamplona a convidou para criar os figurinos de Festa para um rei negro, da Acadêmicos do Salgueiro. Ao lado de Lícia Lacerda, tornou-se a primeira mulher a conquistar o campeonato do Carnaval carioca, em 1982, pela Império Serrano, e foi a carnavalesca com maior número de títulos no Sambódromo. Sua obra era marcada por narrativas improváveis, muitas vezes inspiradas em livros, episódios históricos e elementos da cultura brasileira.
(Rio de Janeiro, RJ, Brasil, 1949) O fotógrafo e bailarino registrou cenas do cotidiano, artistas e momentos da produção do Carnaval da Beija-Flor de Nilópolis entre as décadas de 1980 e 1990. Seu trabalho ganhou destaque pelo registro do processo de criação no barracão.
(Rio de Janeiro, RJ, Brasil, 1900–1982) Desenhista e compositor, foi um dos fundadores da Portela e criou a bandeira da agremiação. Como carnavalesco, deu à escola seu primeiro título com o enredo “O samba dominando o mundo”, em 1935.
(Rio de Janeiro, RJ, Brasil, 1938) Sambista, cantora e compositora, integra uma importante família do samba carioca. Em 1974, ingressou na ala de compositores da Portela. Em 2008, apresentou uma exposição de seus quadros no Centro de Referência da Música Carioca.
(Rio de Janeiro, RJ, Brasil, 1898–1966) Sambista, pintor, compositor e músico, Heitor dos Prazeres foi um dos fundadores de importantes escolas de samba carioca, como a Portela e a Estação Primeira de Mangueira. Na pintura, retratou a cultura brasileira, com ênfase na população negra, dando destaque às festas populares, à religiosidade, ao samba e ao cotidiano.
(Rio de Janeiro, RJ, Brasil, 1887–1974) Percussionista, compositor e pintor, foi responsável por introduzir o pandeiro no samba e consolidar o instrumento como parte fundamental da música popular brasileira. Junto de Pixinguinha e Donga, de quem era amigo, participou dos primórdios do samba.
(Rio de Janeiro, RJ, Brasil, 1938) Pintor, escultor, músico, percussionista, carnavalesco e cenógrafo, possui uma trajetória ligada ao samba e à cultura afro-brasileira. Figura importante na preservação e valorização da memória cultural da Zona Oeste carioca, onde nasceu, teve atuação como carnavalesco em algumas escolas de samba da região.
(Rio de Janeiro, RJ, Brasil, 1917) Pintor, escultor e cenógrafo, formou-se na Escola de Arte Bernardelli e atuou na criação visual de escolas de samba, função precursora da atividade de carnavalesco. Na pintura, retratava os subúrbios e as favelas, o samba, as cenas de rua, as festas e a população negra carioca. Fundou a Depois que eu digo, escola que deu origem à Acadêmicos do Salgueiro.
(Rio de Janeiro, RJ, Brasil, 1924–1973) Compositor, cantor, instrumentista, ator e pintor, destacou-se no samba com composições famosas, como “Me deixa em paz”, “A fonte secou” e “Mora na Filosofia”. Como pintor, retratava temas ligados ao samba e à cultura negra. Em 1972, recebeu um prêmio ao participar do Salão Nacional de Belas Artes, no Rio de Janeiro.
(Rio de Janeiro, RJ, Brasil, 1924–2021) Pintor, compositor, cantor e escritor, foi uma das figuras fundamentais da Estação Primeira de Mangueira, onde integrou e presidiu a ala de compositores. Na pintura, retratou escolas de samba, ritmistas e baianas, paisagens, arquitetura e a vida comunitária, transformando o universo do samba em tema visual.
(Recife, PE, Brasil, 1936 – Embu das Artes, SP, Brasil, 2018) Pintora, escritora, coreógrafa, carnavalesca e folclorista, foi uma importante representante da cultura afro-brasileira. Participou ativamente da Granes Quilombo, no Rio de Janeiro, criando figurinos, em São Paulo esteve envolvida com a Vai-Vai e outras escolas. Filha de Solano Trindade, aproximou artes visuais, teatro, dança, Carnaval e manifestações populares, fundando em Embu das Artes o Teatro Popular Solano Trindade.