Nakoada: estratégias para a arte moderna

9 jul – 27 nov 2022
Curadoria: Denilson Baniwa e Beatriz Lemos

Fundo vermelho com grafismos geométricos remetendo a artesanato indígena, no primeiro plano se lê: Nakoada – estratégias para a arte moderna
Fundo vermelho com grafismos geométricos remetendo a artesanato indígena, no primeiro plano se lê: Nakoada – estratégias para a arte moderna

“Nakoada” é uma estratégia de guerra do povo Baniwa da região do Alto Rio Negro para elaborar novas possibilidades de permanência no mundo. O conceito orienta a curadoria da exposição e resume a tática de mergulhar na compreensão de aspectos de outra cultura para a garantia da própria sobrevivência. Se originalmente esta prática era usada pelos Baniwa para lidar com outros povos originários, hoje é repensada para a relação com culturas não-indígenas. 

Nakoada é um gesto de retorno. Seria o momento em que as pessoas que foram alvos de ações externas entendem o poder opressor do outro e agora procuram uma possibilidade de retornar à sua própria autonomia”, explica Denilson Baniwa, um dos mais proeminentes artistas da arte indígena contemporânea.

Beatriz Lemos, curadora adjunta do MAM Rio, explica que nakoada não é um tema para a exposição, e sim uma forma de agir: “É uma maneira de pensar que se afasta da lógica ocidental imperialista, que incorpora e instrumentaliza as referências dos outros povos. A ideia é entender o modernismo ainda como um marco e estudá-lo, para pensar o que vem pela frente, como podemos imaginar os próximos 100 anos”. 

De acordo com a curadoria, mais do que propor uma revisão crítica do modernismo — o que já vem sendo feito de maneira elaborada, inclusive por artistas indígenas — a exposição pretende mostrar pontos de partida alternativos para refletir sobre o que poderia ser uma produção artística que se engaja com alguns dos ideais modernos, mas escapa de suas armadilhas.

Na exposição, a silhueta de uma cobra serpenteia por todo o Salão Monumental do MAM Rio. A expografia toma a forma de uma serpente cósmica que não tem começo nem fim. Essa simbologia é recorrente na cosmovisão baniwa e em diversas culturas ocidentais e orientais, do norte e do sul. Ela digere a nossa história e carrega, dentro de seu bojo, esse tempo expandido desde antes da colonização.

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OBRAS E ARTISTAS

A exposição conta com trabalhos de quatro artistas contemporâneos convidados a criar especialmente para a ocasião: Cinthia Marcelle, Mahku, Novíssimo Edgar e Zahy Guajajara. Obras fundamentais de expoentes do modernismo brasileiro, como Alberto Guignard, Alfredo Volpi, Anita Malfatti, Candido Portinari, Djanira, Di Cavalcanti, Ismael Nery, José Pancetti, Oswaldo Goeldi e Tarsila do Amaral, entre outros, também estão presentes. 

Completam a mostra uma pintura do artista Jaider Esbell, cerâmicas do acervo do Museu do Índio – potes e vasos dos povos Karajá, Marubo, Maku, Terena e Ticuna, bonecas Karajá e um conjunto de placas com grafemas Baniwa.

Cinthia Marcelle | Meditação da ferida ou a escola das facas – versão Nakoada
A artista mineira exibe a obra Meditação da ferida ou a escola das facas – versão Nakoada. 25 caixas, assemelhadas a faqueiros, são distribuídas pela exposição. As maletas trazem em seu interior apenas a silhueta das facas. Um jogo entre ausência e presença é estabelecido, como se as armas fossem personagens que tivessem se retirado de seu suporte.

Mahku | Kapewẽ Pukenibu
O grupo que reúne artistas Huni Kuin, povo originário do Acre, vem ao Rio de Janeiro para trabalhar em uma pintura de grande escala, numa tela de 12 metros. Nela, representará o jacaré que, como a cobra, é um mito de fundação de mundos. Ao funcionar como uma espécie de portal para se chegar nas outras pinturas da exposição, a tela propõe re-orientações em torno da leitura das telas de paisagem moderna, tratando de se relacionar com a impossibilidade de domesticação da natureza.

Novíssimo Edgar | Sobre os vínculos invisíveis
No trabalho do poeta, artista visual e performer paulista, feito especialmente para Nakoada, linhas são interligadas por sete máquinas de costura, formando uma grande teia. As tesouras suspensas podem ser aproximadas aos recomeços e à iminência dos cortes. A instalação oferece uma reflexão sobre o que resta dos vínculos afetivos quando as relações chegam ao fim. Com ativações performativas realizadas ao longo da duração da exposição, a obra nos convida a pensar sobre as maneiras como as pessoas permanecem umas nas outras após as rupturas.

Zahy Guajajara | Vídeo-instalação 
Nascida na aldeia Colônia, na Reserva Indígena Cana Brava, no Maranhão, a artista audiovisual e atriz traz à exposição uma videoinstalação criada a partir de experimentações de um futurismo indígena. Lançando mão da fonética do povo guajajara, ela se propõe a refletir sobre a cultura indígena após o contato com o colonizador, com suas contradições, presenças e ausências. A ação nakoada está presente aqui na apropriação da linguagem tecnológica como suporte para a sobrevivência das tradições dos povos originários.

ACESSIBILIDADE

Algumas obras vêm acompanhadas de audiodescrição para pessoas cegas e com baixa visão, ou que desejam aprofundar suas experiências com o acervo do MAM Rio. Todos os textos da mostra são disponibilizados em versão digital, para acesso via celular e leitores de tela, e a equipe do museu está orientada a informar o público sobre as audiodescrições.

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Lei de Incentivo à Cultura
Organização: Museu de Arte Moderna do Rio de Janeiro
Patrocínio do Projeto: Penn-Mellon Just Futures Initiative
Apoio do Projeto: Galeria Jaider Esbell, Galeria Luisa Strina, Galeria Milan e Sherwin-Williams
Apoio Institucional do Projeto: Museu do Índio
Patrocínio Estratégico: Instituto Cultural Vale, Ternium, Petrobras
Patrocínio Master: Eletrobras Furnas
Realização: Secretaria Especial da Cultura e Ministério do Turismo

Nakoada: estratégias para a arte moderna recebeu apoio financeiro do subsídio N-2009-09221 da Fundação Andrew W. Mellon Just Futures Initiative, que se intitula Dispossessions in the Americas: The Extraction of Bodies, Land, and Heritage from la Conquista to the Present [Despossessões nas Américas: a extração de corpos, terras e patrimônios desde a Conquista até o presente], administrada pela Universidade da Pensilvânia, coordenada por Tulia G. Falleti como pesquisadora principal, com os pesquisadores co-principais Margaret Bruchac, Ricardo Castillo-Neyra, Ann Farnsworth-Alvear, Michael Hanchard, Jonathan D. Katz, Richard M. Leventhal e Michael Z. Levy.



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