Cinefilia brasileira

PEDRO LOVALLO

Certamente há muito o que se discutir sobre esse hábito cinéfilo de fazer listas, mas acredito que nos melhores casos, quando elas não são redutivas e demasiadamente distanciadas dos filmes, as listas podem ser uma excelente forma de organizar pensamentos, estabelecer diálogos entre obras diferentes e, claro, difundir esses filmes. Por isso, em algum momento de 2019 tive a ideia de organizar uma votação para eleger os melhores filmes da década que se encerrava. Nas últimas semanas do ano convoquei vários amigos e conhecidos apaixonados por cinema e no começo de 2020 saíram os resultados da nossa primeira votação.

Escrevo este texto quase na metade de 2021, dias após os resultados de nossa terceira pesquisa – de melhores filmes dos anos 90 – serem divulgados. Uma votação sempre é muito mais representativa pela multiplicidade de olhares do que pelo consenso, ou seja: as listas individuais são no mínimo tão importantes quanto o resultado final, porque é nelas que somos apresentados ao que move cada pessoa e como essa percepção particular se manifesta, direta ou indiretamente, através dos filmes escolhidos. Até por isso é necessário sempre ir atrás de mais subjetividades, mais formas de ver e sentir o cinema que possam agregar alguma coisa a esse trabalho.

Embora nossas votações tenham cada vez mais participantes – na última foram 171 –, ainda se trata de um grupo razoavelmente restrito. Nosso corpo de votantes é apenas um microcosmo, um pequeno recorte de um todo inassimilável; e para sequer cogitar entender melhor essa tal “cinefilia brasileira” – que conta, inclusive, com alguns poucos estrangeiros que se relacionam conosco e com a nossa cultura – teríamos que fazer questionamentos ainda mais profundos, talvez recorrendo à própria etimologia dessas palavras.

Não ousaria dizer que esse trabalho representa, de fato, a cinefilia do nosso país como um todo; nunca diria que esse grupo, por mais interessante que seja, representa perfeitamente todas as nuances desse conjunto maior, até porque existem carências evidentes na composição do que almejamos ser um grupo verdadeiramente heterogêneo – é necessário, por exemplo, estimular uma maior participação de mulheres, que infelizmente ainda estão em baixíssimo número no corpo de votantes; assim como alcançar outros recortes de crítica e cinefilia, recortes que possam nos oferecer percepções diferenciadas através de escolhas menos óbvias/hegemônicas de filmes, formatos, sensações, etc.

É muito difícil precisar a relevância que esse trabalho possa ter, e eu sinceramente tenho medo de estar sendo tomado por um surto de autoimportância ao sequer cogitar a ideia de que ele tenha de fato alguma relevância, mas se cada vez temos mais participantes, se desconhecidos me procuram em redes sociais e pedem pra participar, se os resultados chegam até pessoas sem qualquer envolvimento com as listas, é sinal de que alguma coisa tem funcionado no sentido de mobilizar uma parte da nossa cinefilia. O que eu sei, e isso é algo que eu aprendi nos meus poucos anos de vida justamente pelas inúmeras descobertas que listas como essas me proporcionaram, é que independente de qualquer forma de legitimação, de qualquer papel específico que votações como essas possam desempenhar no seio da nossa cinefilia, elas podem justamente servir para uma grande quantidade de análises – a partir de relações históricas, geracionais, sociológicas, etc – diferentes.

Muitos dos votantes são pessoas de menos de 30 anos cuja cinefilia certamente foi muito marcada – para não dizer moldada – pela internet (redes sociais, Letterboxd, sites de compartilhamento de filmes); mas também temos cinéfilos mais velhos, críticos pertencentes à geração das primeiras revistas online e blogs de cinema do Brasil, que desbravaram as ferramentas da internet quando eram um território novo e pouco explorado, e que certamente exerceram alguma influência, direta ou indireta, nos mais jovens.

Não me arrisco a tecer essas comparações geracionais por conta própria – talvez alguém mais velho, que viveu os dois momentos, seja mais capacitado a apontar diferenças e semelhanças – e nem sei se é possível falar de gostos herdados, até porque existem tendências muito mais universais do que o nosso recorte geográfico pode dar conta. Mas, falando especificamente de cinema brasileiro, é curioso ver como os filmes de Carlos Reichenbach se saíram bem nas votações realizadas até aqui: tanto Alma Corsária (1993) quanto Falsa Loura (2007) apareceram no top 10 das enquetes de suas respectivas décadas. Era comum, em veículos como a Contracampo ou a Cinética, que seus filmes fossem pauta, e vários desses críticos demonstravam grande afeição pelo cinema de Reichenbach (alguns, inclusive, eram amigos pessoais do realizador), mas se a votação dos anos 2000 fosse realizada alguns anos atrás eu não imaginaria Falsa Loura à frente de filmes como O Signo do Caos (Rogério Sganzerla, 2003), Serras da Desordem (Andrea Tonacci, 2006) ou de todos os trabalhos de Eduardo Coutinho desse período.

Isso não necessariamente significa uma reconfiguração do cânone brasileiro dos últimos anos: fosse um grupo maior de votantes seria bem possível ver Coutinho, Sganzerla ou Tonacci tomando a dianteira nessa disputa entre filmes nacionais; trata-se de uma configuração concebida a partir de um recorte bastante específico e cuja extensão não conhecemos, mas que justamente por isso é interessante.

Já na enquete dos anos 90, o sucesso de Reichenbach era mais previsível, tendo em vista que o leque de opções de filmes brasileiros dessa década é um pouco mais limitado e Alma Corsária sempre deu indícios de ser o mais popular do período entre os votantes. Mesmo assim, é um ótimo exemplo da necessidade de contextualizar essas listas: para muitas pessoas “de fora” pode parecer surpreendente que Central do Brasil (Walter Salles, 1998), provavelmente o filme brasileiro mais popular dos anos 90, seja apenas o quinto mais votado, atrás do já mencionado Alma Corsária e de longas de Candeias e Saraceni, e um curta de Carlos Adriano. Podemos pegar exemplos de fora do cinema brasileiro também: Pulp Fiction: Tempos de Violência (Quentin Tarantino, 1994) certamente é um dos filmes mais conhecidos dos anos 90, mas ficou de fora de um top 10 que tem Showgirls (Paul Verhoeven, 1995) e O Enigma do Poder (New Rose Hotel; Abel Ferrara, 1998), duas obras muito divisivas à época de lançamento; enquanto isso, a minha grande surpresa quanto ao desempenho dos filmes do Tarantino foi justamente ver Pulp Fiction em uma colocação tão alta, acima de Jackie Brown (1997), mesmo que por apenas uma posição (com 7 pontos de diferença).

Embora os resultados em geral não pareçam tão surpreendentes para quem conhece os participantes, é interessante pensar em casos de filmes que alguns anos – e em alguns casos até meses – antes talvez não fossem tão votados. Antes de enviarem suas listas, alguns cinéfilos gostam de correr atrás de filmes importantes que ainda não tenham assistido, e acho interessante observar essa mobilização (mais perceptível aos usuários do Letterboxd) porque ela pode nos mostrar como, dentro desse grupo, pode ocorrer um diálogo (indireto) de sensibilidades; quando uma pessoa “loga” um filme em seu perfil do letterboxd, outra pode ver essa atividade e se interessar pelo filme, estabelecendo uma recomendação indireta (e certamente também acontecem recomendações diretas, mas é um caso mais óbvio e de difícil mapeamento).

Tenho a impressão de que alguns filmes – como os dois Jean-Claude Brisseau que apareceram no top 20 de suas respectivas décadas, Céline (1992) e Les Savates du Bon Dieu (2000) – se beneficiam desse boca a boca sem bocas e acabam aparecendo em mais listas. Entendo quem tenha ressalvas quanto a esse hábito de assistir filmes pertencentes ao recorte da votação antes de enviar sua lista, mas acho que essas críticas (a defesa da espontaneidade e da aceitação das lacunas e imperfeições) dizem respeito mais ao trabalho prático, à feitura da lista em si. Desde que esse hábito não engesse de alguma forma os critérios do votante na formulação de sua lista, acho que é bom que essas pessoas – em especial as mais jovens – aproveitem a oportunidade para entrarem em contato com coisas novas.

No geral, o que me parece influenciar de forma mais concreta os resultados certamente é a facilidade de acesso aos filmes, o que não deixa de ser uma espécie de status, concebido a partir de diversos fatores como o lançamento de novas cópias restauradas, a divulgação através de festivais, de um boca a boca a longo prazo capaz de aos poucos solidificar o filme em questão no cânone e a pirataria. Pegando a votação dos anos 90 como exemplo, não consigo imaginar que há 10 ou 15 anos obras como Cure (Kiyoshi Kurosawa, 1997), Comrades: Almost a Love Story (Tian Mi Mi; Peter Chan, 1996) ou Green Snake (Ching Se; Tsui Hark, 1993) seriam suficientemente populares a ponto de aparecerem no top 20 da década; assim como me parece impensável que A Brighter Summer Day (Gu ling jie shao nian sha ren shi jian; Edward Yang, 1991) fosse tão lembrado antes de receber uma restauração – e aí podemos comparar seu desempenho com o de Mahjong (Ma Jiang, 1996), outro filme elogiado do mesmo cineasta, mas que até hoje só circula na internet em cópias de qualidade inferior: enquanto A Brighter Summer Day aparece em mais de cinquenta listas, Mahjong foi citado em apenas seis.

No top 20 existem casos de filmes que poucos meses antes da votação foram disponibilizados em cópias de qualidade superior às que circulavam anteriormente, como Bom Trabalho (Beau Travail; Claire Denis, 1999) e Crash: Estranhos Prazeres (David Cronenberg, 1996), lançados em blu-ray pela Criterion; e Gente da Sicilia (Sicilia!; Danièle Huillet e Jean- Marie Straub, 1999), disponibilizado pelo MUBI. São filmes já conhecidos e estabelecidos no cânone dos anos 90, então é difícil dizer se isso de fato teve alguma influência, mas cópias em melhor qualidade atraem tanto os cinéfilos que ainda não assistiram aos filmes quanto àqueles que querem reassisti-los em melhores condições, gerando de alguma forma uma mobilização em torno das obras. Por fim, outro exemplo que acho muito curioso é o de Travolta et Moi (Patricia Mazuy, 1994), cuja 64ª posição pode parecer pouco impressionante, mas deve ser contextualizada: uma cópia circulava na internet há bastante tempo, mas não tinha legendas
nem em inglês e muito menos em português. A menos de 2 meses do prazo para envio das listas, legendas em ambos os idiomas foram disponibilizadas e o filme acabou sendo lembrado em 18 listas, um número bastante impressionante se pensarmos que se a votação fosse realizada dois meses antes ele provavelmente mal receberia votos.

Por mais trabalhoso e prazeroso que seja essa tarefa de reunir as listas, é importante lembrar que elas são apenas uma plataforma para difundir e discutir os filmes, os verdadeiros protagonistas. É justamente por ser tão fundamental que eles se tornem cada vez mais acessíveis que iniciativas como a da Cinemateca do MAM são tão valiosas. Durante o mês de junho será possível assistir online os três filmes brasileiros mais votados de cada década, começando pelos anos 90 (de 7 a 13 de Junho) com Alma Corsária, O Vigilante (Ozualdo Candeias, 1992) e O Viajante (Paulo César Saraceni, 1999); depois os anos 2000 (do dia 14 ao dia 20), com Falsa Loura, Jogo de Cena (Eduardo Coutinho, 2007) e O Signo do Caos; e, por fim, os anos 2010 (do dia 21 ao 27), com Garoto (Júlio Bressane, 2015), Já visto jamais visto (Andrea Tonacci, 2014) e A frente fria que a chuva traz (Neville d’Almeida, 2015).

São 9 filmes que, se não podem ser completamente representativos da nossa rica filmografia dos últimos 30 e poucos anos, ao menos são capazes de suscitar incontáveis discussões e ajudar a espalhar a palavra de realizadores fundamentais do cinema brasileiro. Se tratam de obras muito significativas para esse grupo de votantes e que, espero, também deixarão alguma impressão nos que forem apresentados a elas agora. Aos filmes, então!

Lista oficial – Anos 10
Listas individuais

Lista oficial – anos 00
Listas individuais

Lista oficial – anos 90
Lista individuais

Informações:
cinemateca@mam.rio



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